Ensino médio
Centros de excelência do
ensino básico, as instituições estão mais voltadas à preparação de
alunos para experiências no exterior. O currículo internacional e o
perfil de seus estudantes ajudam a explicar a orientação
Nathalia Goulart
(Digital Vision)
As escolas internacionais estabelecidas no Brasil são reconhecidas há
tempos como centros de excelência na educação básica. Concetradas em
capitais como São Paulo, Rio, Brasília e Belo Horizonte, essas
instituições privadas oferecem ensino bilíngue e diploma reconhecido em
outros países. Quanto à qualidade do ensino oferecido, portanto, não
restam dúvidas. Mas uma questão se impõe aos pais que pensam em
matricular ou manter os filhos no ciclo médio dessas escolas, americanas
e britânicas em maioria: atuando no cruzamento entre a educação
brasileira e a internacional, as instituições preparam de fato seus
alunos para o vestibular brasileiro? E para o ingresso nas universidades
de ponta dos Estados Unidos e Grã-Bretanha, por exemplo?
Ao contrário do que acontece nas escolas brasileiras tradicionais,
vestibular e Enem não
são o foco primordial das escolas internacionais — e isso não é, de
forma alguma, um descuido pedagógico. Alguns fatores ajudam a explicar a
orientação diversa, como o currículo adotado e o próprio interesse de
seus frequentadores. A espinha dorsal do ensino médio nas escolas
internacionais é o chamado
international baccalaureate (IB),
programa difundido internacionalmente que permite o trânsito do aluno
por instituições acadêmicas de diferentes partes do mundo. Pelo IB, o
estudante cursa apenas seis disciplinas, menos da metade das treze que
em média recheiam o currículo brasileiro. Para atender às exigências do
Ministério da Educação (MEC), as escolas internacionais oferecem uma
formação complementar, que abrange disciplinas não contempladas pelo IB.
"Apesar de todos os nossos alunos serem estimulados a frequentar as
aulas do programa brasileiro, para assim receber a certificação
nacional, o cerne de nosso ensino ainda é o programa internacional", diz
Carlos Lima, diretor de uma das unidades da Escola Britânica do Rio de
Janeiro.
Isso não significa que os estudantes que desejam seguir os estudos no
Brasil fiquem desamparados. Todas as escolas internacionais ouvidas pela
reportagem mantêm cursos extras para aqueles que vão enfrentar os
vestibulares mais concorridos do país. "Somos um escola voltada para o
público brasileiro. Não podemos ignorar as provas das grandes
universidades locais", diz Shirley Hazell, diretora do colégio britânico
St. Francis, em São Paulo. Ali, por exemplo, são oferecidas aulas de
reforço em disciplinas como física, química e biologia. Nesse caso, todo
o conteúdo é apresentado em língua portuguesa, ao contrário do que
ocorre nas aulas regulares. O objetivo é apresentar ao aluno o
vocabulário específico em português, facilitando a jornada de preparação
para o vestibular. As escolas costumam oferecer, também como atividade
complementar, aulas de redação em português e oficinas de leitura e
análise das obras literárias cobradas pelos grandes concursos. É o caso
da americana Chapel School, mais antiga instituição internacional no
Brasil.

"Eu me dediquei um pouco mais do que alunos de escolas tradicionais, mas me sentia preparada para seleção."
Marina Travesso, 20 anos, ex-aluna do St. Francis que cursa administração no Insper
Nas melhores escolas tradicionais, por outro lado, a preparação para o
vestibular é não apenas um objetivo a ser perseguido durante o ensino
médio. É uma obsessão. No Vértice, de São Paulo, colégio que ocopou o
topo do ranking do Enem, os alunos fazem simulados desde o primeiro ano
do ciclo. No último, chegam a fazer mais de duas dúzias de provas
preparatórias. No Bandeirantes, que tem um índice de aprovação de 60%
nos principais vestibulares, são nove simulados ao longo do terceiro
ano. Ao fim de cada prova, o estudante recebe um mapa que detalha pontos
fortes e fracos de seu desempenho. Quem não consegue aprovação, pode
frequentar a instituição para assistir a aulas e realizar simulados. "O
foco do nosso aluno é a Fuvest. Por isso, esse também é o foco da nossa
preparação", diz Osmar Ferraz, coordenador de vestibulares do
Bandeirantes.
O foco em outro objetivo, que não a Fuvest ou o Enem, é o segundo fator
que ajuda a explicar a orientação diversa das escolas internacionais —
ao lado do currículo apoiado no
international baccalaureate.
"Cerca de 80% das famílias nos procuram já com a intenção de enviar seus
filhos para as universidades no exterior", afirma Eloisa Galesso,
diretora do ensino médio da Escola Americana de São Paulo, a Graded
School. Entre os que desejam permanecer no Brasil, os destinos
preferidos são instituições renomadas de ensino superior privado — caso,
em São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, do Insper e da Escola
Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e, no Rio, IBMEC e Pontíficia
Universidade Católica. "Em geral, eles têm predileção por carreiras
ligadas à área de negócios, e universidades particulares costumam ter
tradição nesse setor", diz Eloisa.
Marina Travesso, de 20 anos, é um retrato desse perfil. Filha de
brasileiros, é ex-aluna do St. Francis, onde se formou em 2011. Fuvest e
Enem não faziam parte dos planos dela, que preferiu o curso de
administração do Insper. "Frequentei as aulas preparatórias oferecidas
pela escola e complementei os estudos com apostilas de cursinhos. Eu me
dediquei um pouco mais do que os alunos das escolas tradicionais, mas me
sentia bastante preparada para a seleção", diz Marina. No ano em que se
formou no St. Francis, sua classe contava com apenas dez alunos.
Desses, apenas quatro permaneceram no Brasil: nenhum ingressou em
universidade pública. Marina não vê problemas. "A educação internacional
me proporcionou subsídios valiosos para mim e apreciados pelo mercado
de trabalho."
O fluxo de estudantes de escolas internacionais para universidades
privadas pode se apoiar ainda em outros fatores. Em primeiro lugar, o
custo da mensalidade não é empecilho para esse público, que chega a
pagar mais de 5.000 reais por mês durante o ciclo médio. Em segundo
lugar, está o fato de os processos seletivos de escolas como FGV e
Insper se aproximarem cada vez mais dos realizados por instituições
americanas e britânicas. Na admissão para o curso de direito da FGV, por
exemplo, o candidato enfrenta uma avaliação oral, onde precisa mostrar
que sabe algo além da decoreba do vestibular. Já o Insper adota a Teoria
de Resposta ao Item (TRI), mesmo modelo matemático usado na correção
do
SAT, exame exigido por todas as universidades americanas.
Estudar no exterior — Quem pretende fazer universidade
fora do Brasil encontra vantagens na escola internacional. "A maior
delas é que, desde cedo, a instituição mostra que fazer um curso
superior no exterior é uma possibilidade concreta. Em geral, os
estudantes de escolas tradicionais só se dão conta dessa opção
tardiamente, o que reduz suas chances", diz Marta Bidoli, conselheira do
EducationUSA, órgão do departamento de estado dos Estados Unidos que
aproxima estudantes estrangeiros e universidades americanas.

"Assim como ingressar na USP demanda trabalho, conseguir vaga nas universidades mais disputadas do mundo requer dedicação."
Camila Cury, de 18 anos, ex-aluna do St. Francis e estudante da Universidade de Nova York
Camila Cury, de 18 anos, confirma a tese. Ex-aluna do britânico St.
Francis, ela acaba de ser aceita pela prestigiada Universidade de Nova
York, 41ª melhor do mundo segundo a publicação
Times Higher Education.
"Sempre estive rodeada de amigos estrangeiros. Isso despertou meu
interesse em estudar fora. Então, comecei a preparação cedo", conta
Camila. No St. Francis, ela contou com orientação pedagógica e pode
frequentar aulas dedicadas à preparação para o SAT. "Assim como
ingressar nos cursos mais concorridos da USP demanda trabalho, conseguir
uma vaga nas universidades mais disputadas do mundo requer muita
dedicação."
Uma das principais dificuldades dos brasileiros é compreender como se
dá admissão dessas instituições. Além de exigente, o processo,
classificado como holístico, avalia não apenas o desempenho acadêmico do
estudante. Os candidatos são estimulados a apresentar redações em que
expõem visão do mundo e projeto para atuar nele. Jovens com forte
atuação social também são bem vistos. Recomendação de ex-professores
contam pontos. Tudo isso é algo inusitado para os estudantes
brasileiros, acostumados a responder questões de vestibular. "Todo o
nosso currículo é desenhado de forma a desenvolver habilidades de
comunicação e pensamento crítico, qualidades indispensáveis para quem
deseja estudar lá fora", diz Eloisa Galesso, da Graded School.
Algumas escolas tradicionais estão atentas para isso também. O Colégio
Bandeirantes, por exemplo, mantém um escritório de aconselhamento desde a
década 1980. "Antes, os alunos estavam mais interessados em
intercâmbios de curta duração. Há menos de uma década, eles passaram a
ver que fazer a graduação fora é possível", diz José Olavo Amorim,
diretor do serviço. Segundo ele, o índice de aprovação é de quase 70%.
Nas lista de 55 universidades que já aceitaram alunos do Bandeirantes
estão Stanford, Princeton e Yale. Um histórico para escola americana
nenhuma botar defeito.
Com reportagem de Lecticia Maggi