sexta-feira, 5 de abril de 2013

Populismo




Vargas, Perón e Rujas: exemplos dos governos populistas estabelecidos no continente americano.


O populismo foi um tipo de situação política experimentada na América Latina entre as décadas de 1930 e 1960, que teve como grande contexto propulsor a crise de 1929. Nessa época, várias das nações latinas – vistas como portadoras de uma economia periférica – viveram uma fase de desenvolvimento econômico seguido pelo crescimento dos centros urbanos e a rearticulação das forças sociais e políticas. Foi em meio a essas transformações diversas que a prática populista ganhou terreno.

A política populista é marcada pela ascensão de líderes carismáticos que buscam sustentar sua atuação no interior do Estado através do amplo apoio das maiorias. Muitas vezes, abandona o uso de intermediários ideológicos ou partidários para buscar na “defesa dos interesses nacionais” uma alternativa às tendências políticas de sua época, sejam elas tradicionalistas, oligárquicas, liberais ou socialistas. De diferentes formas, propaga a crença em um líder acima de qualquer outro ideal.

No campo de suas ações práticas, a tendência populista prioriza o atendimento das demandas das classes menos favorecidas, colocando tal opção como uma necessidade urgente frente aos “inimigos da nação”. De fato, o populismo permitiu a participação política de grupos sociais que historicamente foram completamente marginalizados das arenas políticas latino-americanas. Contudo, esse tipo de ação das camadas populares junto ao Estado não pode ser confundida com o exercício da democracia plena.

Uma das contradições mais marcantes do populismo consiste em pregar a aproximação ao povo, mas, ao mesmo tempo, estabelecer mecanismo de controle que permitam o aparecimento de tendências políticas contrárias ao poder vigente. De tal maneira, os governos populistas também são marcados pela desarticulação das oposições políticas e a troca dos “favores ao povo” pelo apoio incondicional ao grande líder responsável pela condução do país.

Além do autoritarismo e do assistencialismo, os governos populistas também tem grande preocupação com o uso dos meios de comunicação como instrumento de divulgação das ações do governo. Por meio da instalação ou do controle desses meios, o populismo utiliza de uma propaganda oficial massiva que procura se disseminar entre os mais distintos grupos sociais através do uso irrestrito de rádios, jornais, revistas e emissoras de televisão.

A ascensão dos regimes populistas sempre foi vista com certa desconfiança por determinados grupos políticos internos ou estrangeiros. A capacidade de mobilização das massas estabelecidas por tais governos, o apelo aos interesses nacionais e a falta de uma perspectiva política clara poderia colocar em risco os interesses defendidos pelas elites que controlavam a propriedade das terras ou das forças produtivas do setor industrial.

Dessa forma, podemos compreender que o populismo entrou em crise no momento em que não conseguiu mais negociar os interesses – muitas vezes antagônicos – das elites econômicas e das classes trabalhadoras. Quando as tensões políticas e sociais chegaram a tal ponto, podemos ver que grupos nacionais conservadores buscaram apoio político internacional, principalmente dos Estados Unidos, para varrer o populismo por meio da instalação de ditaduras que surgiram entre as décadas de 1950 e 1970.

Na América Latina, os exemplos de experiência populistas podem ser compreendidos na ascensão dos governos de Juan Domingo Perón (1946 – 1955/1973 – 1974), na Argentina; Lázaro Cárdenas (1934 – 1940), no México; Gustavo Rojas Pinilla (1953 – 1957), na Colômbia; e Getúlio Vargas (1930 – 1945/ 1951 – 1954), no Brasil. Apesar de se reportar a uma prática do passado, ainda hoje podemos notar a presença de algumas práticas populistas em governos estabelecidos na América Latina.


Por Rainer Sousa
Mestre em História

Multidões em Cena. Propaganda Política no Varguismo e no Peronismo

Mary Anne JunqueiraDepartamento de História-FFLCH/USP

CAPELATO, Maria Helena R. Multidões em Cena. Propaganda Política no Varguismo e no Peronismo. São Paulo, Fapesp/ Papirus, 1998.

Em muitos países, particularmente nos períodos eleitorais, é notória a utilização de propaganda política que, junto às pesquisas de opinião, se sofisticam mais e mais com a finalidade de conquistar os "corações e mentes" dos eleitores. Embora seja um tema que envolve riscos e desafios, mais do que nunca a propaganda política precisa e deve ser estudada, dada a extraordinária penetração dos meios de comunicação de massa.

O fenômeno surgiu na primeira metade do século XX, quando o rádio (por exemplo) instalado nas salas das casas fazia com que as donas-de-casa tivessem companhia durante o dia e agregasse a família em torno das notícias e programas variados durante a noite. Sabe-se que a utilização maciça da propaganda política na América Latina, na primeira metade do século XX, esteve vinculada aos regimes de Vargas, no Brasil, e de Perón, na Argentina. É sobre esse período que a historiadora Maria Helena Capelato se debruça para analisar a complexidade da propaganda elaborada e divulgada pelo Estado Novo brasileiro (1937-1945) e pelo peronismo (1945-1955).

A autora trabalha a partir de uma abordagem da História política renovada. Investiga as encenações do poder, as representações políticas e os imaginários sociais (constituídos por imagens, mitos, símbolos e utopias). Para tal empreitada, analisa um corpus documental variado (rádio, cinema, jornais, revistas, discursos, cartilhas escolares, folhetos, obra de ideólogos de ambos os regimes) englobando assim os meios de comunicação, educação e produção cultural do período.

A autora lembra com muita propriedade como o candidato Fernando Collor (1989), no Brasil, e Carlos Menem (1988), na Argentina, utilizaram imagens e símbolos presentes no varguismo e no peronismo, confirmando a permanência de traços desses regimes autoritários ainda nos dias de hoje. Maria Helena construiu assim uma análise sofisticada sobre um período decisivo da História latino-americana e sobre um tema que envolve a difícil tarefa de trabalhar com as subjetividades e as "marés instáveis" do coletivo.

Em primeiro lugar, sustenta as semelhanças de um e outro regime: tanto Vargas como Perón inspiraram-se na bem sucedida propaganda nazi-fascista. A propaganda política articulada e capitaneada por Goebbels foi alvo atento da atenção de Vargas. Perón também utilizou os mesmos mecanismos a fim de controlar e dirigir as massas. Importante notar, como ressalta a autora, o fato da propaganda nazista ter se inspirado no sucesso da propaganda comercial norte-americana. Dessa forma, idéias e tecnologias de comunicação circulavam no período com uma velocidade inigualável até então. Conteúdo e forma das mensagens vieram da Europa para o Brasil e para Argentina, mas – afirma a autora – foram reproduzidas com um novo significado, adaptando-se às conjunturas históricas e particularidades culturais do Brasil e da Argentina.

Existem muitos estudos tanto sobre o varguismo quanto sobre o peronismo, mas a originalidade do trabalho de Maria Helena está em elaborar uma análise comparativa entre as propagandas políticas utilizadas por Vargas e Perón, iluminando assim a compreensão dos dois regimes. Em primeiro lugar, é necessário marcar os distintos momentos históricos em que foram veiculadas as propagandas em um e outro país. No caso do Brasil, Vargas consolida o seu poder no período entreguerras, quando do impacto da Revolução Russa, das conseqüências da Primeira Guerra Mundial, da crise econômica de 1929 e do questionamento do liberalismo. Já no caso da Argentina, Perón só chega ao poder ao fim da Segunda Guerra Mundial com a inquestionável vitória dos Aliados. Momento em que, com a derrocada do nazi-fascismo, já se colocavam por terra as objeções às políticas liberais. Dessa forma, quase uma década separa a entrada em cena de Vargas (1937) e de Perón (1945). No entanto foi nesse período que tanto um quanto o outro procuraram canalizar as massas em direção ao projeto autoritário. E mais: Vargas alcançou o poder por meio de um golpe de Estado e Perón tornou-se um dos presidentes mais populares da Argentina, por meio de eleições. Segundo a autora, embora a propaganda política argentina tenha sido organizada através das regras do sistema democrático, a pretensão de conquistar as massas foi a mesma tanto no varguismo quanto no peronismo.

Se é clara a semelhança entre Vargas e Perón no que concerne à inspiração que tiveram na propaganda nazi-facista, também existem analogias em como os dois presidentes procuravam apresentar as sociedades: ambas eram tidas como homogêneas, unidas e harmônicas, negando os conflitos e a pluralidade da vida social. Tais representações exigiam uma ação decisiva contra qualquer conflito ou manifestação da oposição, transformando a propaganda política em um instrumento eficaz para aqueles regimes de caráter autoritário. Assim, verificou-se no âmbito das duas sociedades um controle exaustivo dos meios de comunicação com o objetivo de canalizar a participação das massas na direção imposta pelos dois governos.

Mas, como afirma a autora, se por um lado existem semelhanças, por outro, são muitas as diferenças que marcaram os dois regimes. Varguismo e Peronismo procuravam através dos símbolos definir aliados e inimigos, muitas vezes utilizando-se de imagens religiosas. No entanto, enquanto o comunismo foi o inimigo instaurado pelo governo Vargas, catalisando os temores de desintegração da sociedade, no caso do Argentina, foi eleito como inimiga do regime a oligarquia "vende-pátria" que se associava aos interesses estrangeiros e o imperialismo (primeiro o inglês e depois o norte-americano).

Getúlio Vargas como se sabe era considerado o pai dos pobres, e a autoridade máxima que protegia um povo-criança, inábil e incapaz de escolher os seus representantes. Perón era igualmente considerado um pai, mas, carregava um qualificativo a mais, era também visto como amigo e procurava uma proximidade maior com os trabalhadores. Maria Helena afirma que Getúlio Vargas esteve voltado para a construção do "trabalhismo brasileiro", mas nada se compara ao que aconteceu na Argentina, quando houve de fato uma grande melhoria de vida da população, especialmente porque naquele país os trabalhadores já eram uma categoria consolidada. A justiça social foi o carro-chefe da política peronista com vistas a direcionar os trabalhadores no rumo imposto pelo regime.

No Brasil de Vargas a mesma questão foi tratada de forma diferente: aqui se pretendia formar, moldar o trabalhador produtivo. O objetivo principal do regime era reformar o Estado e criar uma força de trabalho disciplinada a fim de empreender o desenvolvimento do país. Dessa maneira, a justiça social foi um lema muito mais do peronismo do que do varguismo. A autora conclui então que a propaganda política foi utilizada de forma mais intensa e determinante na Argentina, uma vez que Perón não se descuidava do apoio das massas para se manter no poder. No caso de Vargas – instalado na cadeira presidencial por meio de um golpe e com apoio dos setores dominantes e das forças armadas – não houve a mesma necessidade da aprovação popular maciça que existiu na Argentina.

Além disso, diferentemente de Vargas, Perón contou com a atuação de sua mulher Eva Perón, peça-chave na propaganda política e alicerce do regime autoritário argentino. A atuação do casal, e em especial a ação de Eva, mostrava à população as representações masculina e feminina do poder. Eram imagens que sugeriam o homem como o "salvador", com a função de livrar a sociedade das forças perniciosas e a mulher como "mártir e redentora" da Argentina. Assim ficavam definidos o papel dominante do homem e a posição de satélite legada à mulher. Eva Perón, como se sabe, se tornou mito, sendo reverenciada por uns e detratada por outros, e ainda hoje é tema de filmes, biografias e alvo de controvérsias naquele país.

Em ambos os regimes, afirma a autora, houve a tentativa de calar as vozes dissonantes. Mas as diferenças entre Brasil e Argentina foram significativas. No Brasil, embora tenha havido oposição a Vargas – especialmente no interior das universidades – existiu uma forte atuação do regime em cooptar os intelectuais, abrindo espaço para as produções artísticas, processo capitaneado pela figura polêmica de Gustavo Capanema. Na Argentina, ainda que existissem escritores francamente peronistas, a reação dos intelectuais foi muito mais radical contra o regime. Basta lembrar a trajetória de Jorge Luis Borges, perseguido por Perón, por suas críticas ao que os escritores chamavam de fascismo local. Segundo Maria Helena, essas constatações permitem destacar as diferenças entre as culturas políticas brasileira e Argentina. Embora no Brasil existisse uma oposição significativa, as iniciativas procuraram se organizar mantendo um consenso, enquanto na Argentina é indiscutível a existência de uma sociedade muito mais polarizada.

Assim sendo, o trabalho de Maria Helena Capelato – construído a partir de pesquisa em fontes, profundo conhecimento da bibliografia sobre o período e sustentado pela multiplicidade de temas que surgiram com a comparação – é uma valiosa referência sobre a época. Além disso, a autora convida o leitor a pensar não só sobre a propaganda política de ontem, mas também na que se faz hoje. É bom salientar que, embora Vargas e Perón tenham conseguido um apoio considerável das massas, isso não quer dizer que a propaganda política dirige de forma determinante as vontades e as ações da sociedade. Seria bom ouvir o que o próprio Perón constatou ao fim da sua trajetória política. "Em 1955, tendo a totalidade dos meios de comunicação à disposição fui derrotado; em 1945 e 1973, antes das eleições, a imprensa toda se opôs a mim não impedindo a minha chegada à Casa do Governo".

Varguismo e peronismo


 

Introdução

Embora não haja um consenso na historiografia em relação aos governos de Getúlio Vargas, no Brasil, e Perón, na Argentina - pois alguns pesquisadores consideram esses governos populistas, enquanto outros negam essa definição -, o estudo desses momentos históricos é fundamental, já que possibilita reflexões valiosas sobre aspectos da contemporaneidade dessas duas realidades históricas.
O denominado "populismo latino-americano" teria emergido na década de 1930 e se estendido até os anos de 1960 e 1970, quando, com o processo de modernização e industrialização, ainda que conservador, as classes populares surgem no cenário político.
Tal afirmativa não significa dizer que a população não desenvolvesse lutas e formas de resistência. O fato é que, em um cenário de reestruturação das economias latino-americanas (depois da crise de 1929), se estabelecem relações mais complexas entre capital e trabalho, cabendo ao Estado o papel de "mediador". Uma mediação que, por diversas vezes, favorecia as lutas do patronato e impedia ou dificultava a obtenção de sucesso pela classe trabalhadora.
Nesse contexto, responde-se aos anseios das classes populares de maneira autoritária e paternalista. As cobranças dos trabalhadores, por exemplo, são respondidas com o desenvolvimento de extensa legislação trabalhista, que não pode ser vista como concessão, mas, sim, como resultado da pressão exercida pelos operários.

Objetivos

1) Reconhecimento do contexto histórico em que se desenvolvem o varguismo e o peronismo.
2) Reflexões sobre o uso da imagem desses governantes como propaganda política.
3) Análise do uso das imagens de Getúlio Vargas nas campanhas políticas contemporâneas.
4) Análise de documentos: propagandas da época, livros didáticos, etc. (O professor pode usar a fonte a que tenha maior acesso, ou buscar outros documentos, de uso mais incomum, ampliando assim o leque de possibilidades documentais para a construção do saber histórico).
5) Reflexões sobre as maneiras usadas pelos trabalhadores para alcançarem seus objetivos.

Estratégias

1) Inicie o trabalho falando da realidade brasileira, mais próxima para os alunos. Em seguida, lance uma questão problematizadora. Pergunte aos alunos: Quais estratégias vocês usariam para conseguir um aumento salarial ou qualquer outro direito, se trabalhassem na mesma fábrica e se sentissem injustiçados?
Registre as idéias dos alunos no quadro e comece a traçar semelhanças e diferenças entre suas respostas e o período do varguismo. Por meio desse trabalho, os alunos conhecerão as ações dos sujeitos históricos envolvidos.
2) Demonstre com estatísticas ou com exemplos de movimentos grevistas como os trabalhadores desenvolviam seus embates e formas de resistência.
3) Faça uma exposição sobre o processo de "concessão" dos direitos trabalhistas e de toda a construção da imagem de Getúlio Vargas como "Pai dos Pobres". Trabalhe com as propagandas veiculadas sobre a imagem desse governante e problematize com a turma se alguns políticos usam métodos parecidos na atualidade, usando inclusive o nome de Getúlio como referência.
4) Demonstre aos alunos como o governo agia para controlar o sindicalismo ou qualquer luta política e apresente as maneiras usadas pelo operariado para conquistar seus objetivos.

Atividades

1) Depois de trabalhar com o varguismo em sala de aula, peça que os alunos tragam pesquisas sobre Perón. Oriente para que a leitura se realize em sala de aula e peça que montem, em grupos, um quadro comparativo com o varguismo, buscando aproximações e diferenças.
2) Depois que os alunos desenvolvam os quadros comparativos, peça que apresentem para o restante da sala. Não deixe de fazer as intervenções necessárias e "amarre" as apresentações com os estudos já desenvolvidos.
3) Faça da sala de aula uma espécie de sessão em que seria votado algum direito exigido pelos trabalhadores brasileiros da época de Getúlio Vargas, como a redução da jornada de trabalho ou a lei de férias. Realize essa sessão demonstrando os artifícios usados pelo patronato brasileiro para controlar, ou melhor, "domesticar" a classe trabalhadora.

Sugestões

A leitura do texto citado abaixo pode auxiliar no tratamento do tema com a turma e tornar a explanação do professor mais atraente e significativa:
WOLF, Joel. "Pai dos Pobres ou mãe dos ricos? Getúlio Vargas, industriários e construções de classe, sexo e populismo em São Paulo, 1930-1954". Revista Brasileira de História, São Paulo: ANPUH/ Marco Zero, n°27, p. 27-60, 1994.
Érica Alves da Silva
é historiadora.

Produção industrial cai em 11 das 14 regiões brasileiras

Indústria


Das áreas que o IBGE avalia em seus estudos, apenas Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina expandiram sua produção entre janeiro e fevereiro

Pilha de minério de ferro na Mina Gongo Soco, em Barão de Cocais, Minas Gerais
Indústria de minérios de MG foi uma das que mais pesou negativamente para o estado apresentar recuo da produção industrial entre fevereiro de 2012 e 2013 (Divulgação Vale)
A produção industrial em fevereiro recuou em 11 dos 14 locais pesquisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na terça-feira, o IBGE informou que o ritmo da produção nacional despencou 2,5% em fevereiro - maior recuo mensal desde dezembro de 2008 quando, no auge da crise financeira internacional, a indústria do país recuou 12,2%. O número praticamente anula o avanço de 2,6% registrado em janeiro ante dezembro. Na comparação com fevereiro do ano passado, a queda é ainda maior, de 3,2%.
Entre as regiões, a queda mais significativa foi em Minas Gerais, de 11,1%, seguido por Bahia (-3,7%), Ceará (-3,2%), Pernambuco (-3,2%) e Pará (-2,5%). Também houve queda no Paraná (-2,2%), Região Nordeste (-2,0%), Espírito Santo (-1,8%), Rio de Janeiro (-1,5%), Amazonas (-1,2%) e São Paulo (-0,5%), de acordo com dados divulgados nesta sexta-feira.
Apenas Goiás (5,0%), Rio Grande do Sul (2,1%) e Santa Catarina (0,4%) conseguiram aumentar sua produção na indústria, em um momento em que o Brasil sofre com a queda de demanda internacional, diminuição das exportações e consumo interno ainda fraco.


Na comparação com fevereiro de 2012, a produção industrial nacional recuou 3,2% em fevereiro de 2013, com dez dos 14 locais pesquisados apontando queda na produção. As taxas negativas foram vistas no Espírito Santo (-13,4%), Minas Gerais (-9,8%) e Pará (-7,2%).
Nessas localidades, os setores que mais pesaram negativamente foram o de metalurgia básica (lingotes, blocos, tarugos ou placas de aços ao carbono) e alimentos e bebidas (produtos embutidos de carnes de suínos e bombons), no primeiro local; veículos automotores (automóveis), metalurgia básica e indústrias extrativas (minérios de ferro), no segundo; indústrias extrativas (minérios de ferro e minérios de alumínio) e celulose, papel e produtos de papel (celulose), no último.

Apenas Goiás (9,1%), Rio de Janeiro (3,6%), Rio Grande do Sul (2,0%) e Ceará (0,9%) mostraram expansão. Em Pernambuco (-6,0%), Paraná (-5,5%), Região Nordeste (-4,1%), Santa Catarina (-3,3%), Amazonas (-3,2%), Bahia (-2,2%) e São Paulo (-0,8%) também houve queda na produção da indústria.

Filme Cidade Fantasma



O Brasil e a geopolítica do turismo perigoso

Foto em jornais estrangeiros que ilustra a tragédia no Rio/ Reuters
Nos últimos dias, na esteira do estupro de uma turista americana no Rio de Janeiro, a Índia, que tem o seu prontuário de horror no setor, cedeu lugar ao Brasil na imprensa global como capital de assaltos sexuais. Esta coluna, portanto, vai tratar um pouco da geopolítica do turismo perigoso e prestar um serviço de utilidade pública aos brasileiros que viajam para o exterior. O trabalho pesado foi feito pelo site da revista The Atlantic e, turisticamente, eu pego carona.
Eis a questão geopolítica: viajar ou não?
The Atlantic também pegou carona, primeiro em um mapa baseado nos alertas do Ministério das Relações Exteriores do Canadá. Turistas devem ser cuidadosos com o Brasil (há lugares muito piores, basta ver o mapa), colocado na categoria que merece “extrema cautela”, a segunda mais suave, enquanto a Índia é considerada mais perigosa, com a listagem das áreas do país que devem ser evitadas. Vermelho é a cor barra pesada no mapa.
O Departamento de Estado dos EUA também elabora o seu mapa com alertas e os suspeitos habituais. Temos os buracos quentes na África do Norte, Oriente Médio, alguns cafundós da Ásia, como (surpresa?), a Coreia do Norte. Aqui, verde (?) é a cor barra pesada. O Departamento de Estado adverte sobre o México, um destino favorito dos turistas americanos, mas poupa o Brasil.
Uma grande preocupação na cobertura da imprensa internacional é se haverá segurança no Rio e em outras cidades brasileiras em eventos globais (religião e esportes), já a partir de 2013, com a Jornada Mundial da Juventude, em julho, e se estendendo até os Jogos Olímpicos de 2016. O site The Atlantic diz que será interessante ver já em breve se o estupro da turista americana no Rio terá impacto no fluxo de turistas estrangeiros no Brasil.
A cobertura do estupro da estudante indiana, ocorrida em dezembro, foi muito mais intensa na imprensa internacional do que este caso agora no Rio da estudante americana. E o impacto no turismo foi pesado no país com a campanha promocional internacional da “incredible India”. Desde dezembro até o final de março, houve declínio de 25% do número de turistas estrangeiros (35% entre mulheres).
Meu faro diz que no Brasil, em parte , o fluxo de turistas estrangeiros vai depender do tom da cobertura de imprensa, cujo visual ainda é muito bonito, mesmo em histórias terríveis. Na cobertura de sites, jornais, revistas e televisão sempre estão presentes imagens de praias maravilhosas e de garotas de Ipanema ou Copacabana, onde começou a trágica odisseia da turista americana. Até o meu querido Financial Times não resiste. Desbunda para o clichê e ilustra reportagens sobre as reviravoltas da economia brasileira com mulata sambando na avenida.
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PS- Em função de um comentário do leitor Henrique (dia 5, 9:22), um adendo: o texto no site The Atlantic questiona os critérios do Departamento de Estado para não considerar Brasil mais perigoso do que o seu ranking (ou coloração) no mapa. 
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Colher de chá para os vários comentários matutinos do Pedro Bouvetiano por estimular o debate e uma para o comentário pontual da Carmem (dia 5,10:03). 

Coreia do Norte propõe retirada de embaixadas da capital

Diplomacia


Motivo seria aumento da tensão na península coreana, segundo diplomata

Tanques sul-coreanos passam por uma ponte temporária perto da fronteira com a Coreia do Norte. Nova presidente da Coreia do Sul prometeu forte resposta militar a qualquer provocação da Coreia do Norte depois que Pyongyang anunciou que os dois países estavam agora em estado de guerra
Tanques sul-coreanos passam por uma ponte temporária perto da fronteira com a Coreia do Norte. Nova presidente da Coreia do Sul prometeu forte resposta militar a qualquer provocação da Coreia do Norte depois que Pyongyang anunciou que os dois países estavam agora em estado de guerra - Kim Jae-Hwan/AFP
A Coreia do Norte disse a embaixadas estrangeiras para considerarem a possibilidade de retirada de pessoal caso as tensões aumentem, informou nesta sexta-feira a agência de notícias oficial da China, Xinhua, citando fontes diplomáticas. A Rússia já havia informado que Pyongyang pediu a retirada dos funcionários de sua embaixada na capital em função do aumento da tensão na península coreana.
"Em 5 de abril, um representante da chancelaria da Coreia do Norte propôs que a Rússia estude a evacuação dos funcionários de sua embaixada diante do agravamento da situação na península coreana", disse o diplomata Denis Samsonov. Ele acrescentou que Moscou atualmente estuda que decisão adotará.


Samsonov ressaltou que a situação na capital norte-coreana é de normalidade. "Não está ocorrendo nada de extraordinário. A não ser por hoje ser feriado. A embaixada trabalha de forma habitual", disse. As embaixadas da Rússia, China e Cuba estão entre as poucas credenciadas a funcionar na Coreia do Norte.
Crítica - A Rússia, que compartilha apenas 20 quilômetros de fronteira com a Coreia do Norte, considera inadmissível a decisão de Pyongyang de buscar meios para legitimar seu status de país nuclear. "Intenções como essa complicam gravemente, se não chegam a fechar, as perspectivas de reatamento das conversas de seis lados para a solução do problema nuclear na península de Coreia", disse na quinta-feira o porta-voz da chancelaria russa, Aleksandr Lukashevich. A China, considerada a principal aliada do regime comunista norte-coreano, pediu cautela às duas partes.


Em 26 de março, a Coreia do Norte anunciou que havia colocado seus mísseis e unidades de artilharia "em posição de combate", com mira na Coreia do Sul, no território continental dos Estados Unidos e nas bases militares americanas no Pacífico. Em seguida, em 30 de março, Pyongyang declarou estado de guerra contra a Coreia do Sul.
Nesta sexta-feira, a Coreia do Sul deslocou dois navios de guerra com capacidade para interceptar mísseis balísticos para sua costa, depois de detectar indícios de que a Coreia do Norte pode estar preparando um ataque nos próximos dias. Citando um alto oficial militar, a agência Yonhap aponta que, após um mês de ameaças, a Coreia do Norte transferiu de trem, no início desta semana, dois mísseis Musudan e os colocou em plataformas de lançamento móveis na costa leste, no que seria um dos últimos preparativos antes de um lançamento surpresa.
(Com agência EFE)

Crédito aquecido: cresce o número de brasileiros com prestações a pagar | Agência Brasil

Atualizado: 04/04/2013 17:34 | Por Agência Brasil, Agência Brasil





Alana Gandra
Niks Produção
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro - A Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ) apontou que houve um aumento de mais de 3 pontos percentuais no número de pessoas que pagavam algum tipo de prestação, de fevereiro de 2012 para fevereiro deste ano. A conclusão consta de pesquisa feita com mil pessoas, em 70 cidades brasileiras de nove regiões metropolitanas. No ano passado, 44% das pessoas que responderam à pesquisa estavam endividadas. Em fevereiro passado, o percentual subiu para 47,4%.
O economista da Fecomércio-RJ, Christian Travassos, explicou que o resultado mostra o percentual de endividados já que qualquer pessoa que toma um empréstimo, efetivamente, tem uma dívida. 'Endividado não quer dizer inadimplente. Endividado é a pessoa que tem uma dívida, que tomou um financiamento'.
Segundo ele, o aumento tem a ver com o mercado de trabalho, que continua gerando vagas, e com as medidas do governo para manter a economia aquecida, tais como a desoneração de produtos como automóveis, móveis, eletrodomésticos da chamada linha branca (fogão, tanquinho, geladeira e máquina de lavar roupa) e material de construção civil. 'É uma estratégia [do governo]. E o mercado de trabalho, apesar de ter desacelerado, permaneceu gerando acima de 1 milhão de vagas, com carteira assinada, que também é um componente importante para a tomada de crédito'.
Além disso, o economista lembra que houve melhora do orçamento das famílias e também dos níveis de inadimplência. 'Os ganhos extras de renda, permitidos pela carteira assinada, ajudam o consumidor a quitar dívidas.'
A pesquisa também revelou que a inadimplência nos parcelamentos caiu 5,8 pontos percentuais, passando de 15,9% em fevereiro de 2012 para 10,1% em fevereiro deste ano. Esse é o menor patamar de inadimplência em prestações para o mês de fevereiro desde 2010. 'É sinal que o brasileiro aproveitou esse período de incentivos fiscais, de redução dos juros e de manutenção do aquecimento do mercado de trabalho para honrar dívidas e tomar financiamentos'.
Os produtos mais parcelados em fevereiro passado foram artigos de vestuário (30,4%), eletrodomésticos (26,6%), móveis (17,4%), artigos eletrônicos (16,8%) e veículos (12,3%).
Edição: Lana Cristina
Agência Brasil - Todos os direitos reservados.
Atualizado: 04/04/2013 17:59 | Por Agência Brasil, Agência Brasil

Famílias aceitam sair de terreno da União ao lado do Jardim Botânico do Rio | Agência Brasil

Vladimir Platonow
Repórter da Agência Brasil
Rio de Janeiro - As quatro famílias que ocupavam imóveis em terreno de propriedade da União, ao lado do Jardim Botânico do Rio, aceitaram hoje deixar o local em cumprimento da determinação judicial de reintegração de posse. A primeira tentativa dos oficiais de Justiça ocorreu ontem (3), mas a decisão dos moradores de acatar a medida só foi tomada no meio da tarde de hoje (4), após um dia de protestos de dezenas de famílias que também temem perder os seus imóveis.
No começo da manhã, uma barricada com troncos de árvores, pedaços de ferro, galhos e arame farpado chegou a ser montada, quando o clima ficou tenso, diante da chegada de policiais do Batalhão de Choque da Polícia Militar e de agentes da Polícia Federal.
Depois de seis horas de negociações, que envolveram oficiais de Justiça, policiais militares, advogados e representantes dos moradores e da Secretaria de Patrimônio da União (SPU), as famílias aceitaram ir provisoriamente para uma casa no bairro da Tijuca e dois apartamentos no centro.
O acordo foi intermediado por representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Para o integrante da Comissão dos Direitos Humanos da Alerj Tomaz Ramos, a retirada dos moradores ocorreu por pressão judicial. 'A outra opção seria colocar os móveis dos moradores dentro de um contêiner', disse Ramos.
Residem na área em conflito 622 famílias, algumas há várias décadas. Muitas delas de funcionários do Jardim Botânico. Um processo de regularização fundiária está em curso e deverá ser apresentado até março de 2014, quando a área total do Jardim Botânico será delimitada, o que possibilitará a realocação de parte dos moradores situados dentro do perímetro do jardim.
Edição: Aécio Amado
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A imprensa brasileira



A imprensa brasileira, com medo da regulação e assediada por patrulhas internas e externas, está se tornando uma agente da ditadura do falso consenso: emburrece o debate, sataniza a divergência e lincha pessoas por delito de opinião. Ou: Beijo na boca não pode ser a outra forma do escarro

Ontem você encararam com galhardia um texto longo. Aí eu me animo, né? Mais um do mesmo porte. Quem me detesta já desiste; quem gosta faz a festa.
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Um deputado que não pensa segundo os cânones de certa militância política assume uma comissão da Câmara. Tem início uma campanha para esmagá-lo, à qual adere quase toda a imprensa, ao arrepio de qualquer fundamento que orienta a boa prática jornalística. O secretário particular de um governador de estado emitiu, antes ainda de ocupar a atual função, opiniões políticas distintas daquelas consideradas “progressistas”. Um colunista de jornal se sente no direito de cobrar desculpas desse governador, e o veículo no qual ele trabalha dá início a uma campanha de desmoralização do funcionário. Um senador, possível candidato à Presidência da República, chama o, digamos, “evento” de 1964 de “revolução”, e tem início uma patrulha agressiva porque, sustenta-se, o certo seria chamar de “golpe”. Pessoas e forças políticas que se oponham às posições consideradas “corretas”, quando não ignoradas, são impiedosamente ridicularizadas, tratadas como idiotas, vistas como expressões do atraso. A democracia brasileira está doente, e o nome dessa doença é intolerância. A imprensa, que deveria denunciá-la, transformou-se em agente do linchamento da divergência. Com medo a regulação, assediada por patrulhas internas e externas, torna-se, a cada dia, mais refém dos grupos de pressão e das militâncias organizadas. Quando não é ativamente fascitoide, é de uma pusilanimidade espantosa. Fecho este parágrafo assim: não existe esta sociedade de um lado só em nenhum lugar do mundo — ou, para ser mais preciso, em nenhuma democracia do mundo. Sociedade de massa de um lado só é fascismo.
Se um dia o PT conseguir emplacar o “controle social da mídia” (algum controle virá, fiquem certos; lembro que o projeto defendido pelo partido numa resolução do Diretório Nacional prevê controle de conteúdo), não terá tanto trabalho assim. Restará uma cidadela ou outra a colonizar, a domesticar, a domar, a dominar, a esmagar. O que Hugo Chávez conseguiu na Venezuela por meio da violência está sendo paulatinamente conquistado pelos petistas no Brasil por meio da cooptação e da ocupação das redações por uma forma de militância política que já dispensa a carteirinha de filiação. A fantasmagoria imaginada por Gramsci (que ele achava ser a redenção da humanidade, o tarado!) começa a se materializar. O teórico comunista italiano afirmava que o “Príncipe” moderno não era mais, obviamente, aquele de Maquiavel. O “Moderno Príncipe” era o partido político. E ele sintetizou, então, como seria a sociedade sob o comando dessa força — eu não resisto à provocação — verdadeiramente satânica:
“O Moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, uma vez que seu desenvolvimento significa, de fato, que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio Moderno Príncipe e serve ou para aumentar o seu poder ou para opor-se a ele. O Moderno Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume”.
Bingo! É a definição do totalitarismo perfeito. Na sociedade antevista por Gramsci, é impossível pensar fora dos limites do que estabelece, então, esse “Moderno Príncipe”. Desaparecem as noções de crime e de virtude. Esse ente de razão dirá quando cada ato é o quê, de sorte que, sob certas circunstâncias, pode-se tomar o crime por virtude e a virtude por crime. A verdade desse coletivo passa a ser o imperativo categórico.
Naquele longo texto de ontem, em que afirmei que a causa gay está sendo usada como ponta de lança de uma ação maior contra a democracia representativa, comentei um texto de Vladimir Safatle (aquele humanista que toma um nascituro por uma lombriga). Ele chama a ação fascitoide contra Feliciano (e não! Eu não concordo com o deputado) de “o primeiro embate”. Segundo Safatle, as ações contra o parlamentar representam uma “profunda discussão” sobre “a sociedade que queremos”. Por alguma estranha razão, o seu “nós” — ele se refere aos brasileiros — não inclui o “eles”. O seu “nós”, de uma sociedade que chama “radicalmente igualitária”, exclui os que pensam de forma diferente porque seriam apenas manifestações do atraso. Trata-se da reiteração do pior lixo produzido pelas esquerdas em sua história. Foi com essa visão de mundo que o comunismo se tornou a maior máquina de matar que a civilização conheceu. Subjacente a esse pensamento está a convicção de que a humanidade tem um sentido e uma direção — no artigo, ele sugere que até a história tem uma moral intrínseca — e caminha segundo alguma lei da evolução. E, é evidente, a esquerda estaria no comando desse processo; estaria aí para acelerar a história. Como bom esquerdista, Safatle nem aprendeu nada nem esqueceu nada.
Sou, no entanto, realista e reconheço que eles estão avançando. Safatle mesmo só se tornou colunista fixo de jornal depois de ter tido a ousadia de especular, num artigo, sobre as virtudes da ação terrorista como um campo pouco explorado de um humanismo alternativo. Ele resenhava o livro de um delinquente intelectual chamado Slavoj Zizek. E, o que não me surpreendeu, conseguiu piorar o original. Vejo o noticiário de TV, leio jornais, revistas, sites… Escolhas políticas, valores ideológicos de grupos, patrulhas as mais odientas, tudo aparece como se estivéssemos diante de verdades universais. Nos dias de hoje, também o “Moderno Príncipe” de Gramsci passou por um aggiornamento. As minorias formam as células, que se organizam na rede, que é o partido. Aquilo que Marina gostaria de fazer, o PT já fez. Faz sentido. Ela é de lá. É que tem mais ambições do que o permitido… 
Poder-se-ia, ao menos, constatar, ainda que isso não mudasse o caráter autoritário do que está em curso: “Pô, Reinaldo, vivemos nesse mundo sem contraditório, mas reconheça que o Brasil está uma maravilha; estamos no caminho certo!” Pois é. Não estamos! Um país que não debate, que vive da reiteração das mesmas verdades, que sataniza o conflito de ideias, que busca eliminar a divergência, vai dar em quê?
Voltando ao começo
O governador Geraldo Alckmin indicou para seu secretário particular um jovem advogado chamado Ricardo Salles. Não sei a idade, mas deve estar na casa do 30, 30 e pouquinhos. Não participou, portanto, do golpe militar de 1964. Antes de ser indicado para a função, integrou um grupo chamado “Endireita Brasil” — que era público, não clandestino. Ainda que pareça exótico aos ignorantes convictos, existe uma direita democrática. Já houve um tempo em que jornalistas sabiam quem era Churchill e ignoravam a Beyoncé da época, seja lá quem for essa… Frases ditas por Salles num debate no Clube Militar foram escandalosamente retiradas do contexto e lhe atribuíram o que não disse: ele teria negado a existência de tortura durante o regime militar. Não negou. Também se noticia em tom de escândalo o fato de que criticou os rumos tomados pela Comissão da Verdade. Mais: em algum momento, ele teria chamado a presidente Dilma de terrorista — o que ele nega. Não se reproduziu texto nenhum seu com essa afirmação.
Marcelo Rubens Paiva, colunista do Estadão e filho do deputado Rubens Paiva — que desapareceu em janeiro de 1971, sequestrado pela ditadura — passou a pedir a cabeça de Salles, campanha endossada de maneira mais do que indiscreta pelo Estadão, por meio de reportagens. Marcelo foi além e exigiu, imaginem só!, uma “retratação” de Alckmin. De súbito, parecia que o governador e seu secretário eram, sei lá, dois agentes da ditadura.
Marcelo já andou me criticando por aí. Respondi com bom humor. Ele pode achar que não tenho o direito de pensar o que penso, mas defendo o direito que ele tem de pensar o que pensa. Na minha República, haveria pessoas como ele; na sua, desconfio que eu seria banido. Ele pode achar que assim seria porque é melhor do que eu. Prefiro achar que assim seria porque sou mais tolerante do que ele, ainda que eventualmente ele possa ser melhor do que eu.
Acho absolutamente compreensível que ele tenha uma percepção especialmente aguda, dura mesmo, daquele período. Certamente não foi fácil para ele e para sua família. Eu defendo a Lei da Anistia e acho um absurdo que a Comissão da Verdade esteja forçando a mão para ir além do que estabelece essa lei e a que criou a própria comissão. Mas me coloco na situação de Marcelo e me pergunto se eu também, vivendo o que ele viveu, não pensaria algo parecido. Tivessem sequestrado meu pai, seu corpo não tivesse aparecido até hoje, com a memória do sofrimento da família… Talvez eu quisesse revanche. Faço essa observação para deixar claro que não arbitro sobre questões e dores pessoais.
“Não é questão só pessoal; é também política!”, poderia objetar um indignado apressado. Sim, eu sei. Mas nem a dor de Marcelo o autoriza a cassar de alguém o direito à opinião. Tampouco o autoriza a cobrar do governador uma retratação. Por quê? Com base em quê? E, se é de política que estamos falando, indago: o filho de Rubens Paiva cobrou, alguma vez, retratação de Lula por sua proximidade com alguns próceres do regime militar, incluindo signatários do AI-5? Exigiu retratação de Fernando Haddad por ter se abraçado a Paulo Maluf na eleição para a Prefeitura de São Paulo — ou também Marcelo, a exemplo de Marilena Chaui, acha que, agora, “Dr. Paulo” deixou de ser um homem da ditadura para ser apenas um engenheiro? Salles não tem uma fatia do governo do Estado. Maluf tem um fatia da Prefeitura. Salles tem apenas uma opinião. Maluf é poder.
Sem jamais relativizar os fortes motivos que tem Marcelo, eu me pergunto em que medida o passado está sendo usado para cuidar de demandas que dizem respeito ao presente. Estou tratando de matéria de fato, não de opinião: em 2013 (e desde 2003), é o PT que está próximo de fiéis servidores da ditadura, não Alckmin ou o PSDB. O governador não participou do golpe, tampouco seu secretário, que talvez tenha nascido já na década de 80.
Comissão da Verdade
Tenta-se fazer um escarcéu porque Salles seria “crítico” da Comissão da Verdade. Eu também sou. E daí? E fui perseguido pela ditadura, o que não é o caso de boa parte dos patrulheiros. Alguns tontos nem sabem do que estão falando. O grupo começou os trabalhos anunciando que ignoraria o próprio texto que o instituiu. Existe para apurar também os crimes de grupos terroristas. Já deixou claro que não vai fazê-lo. O respeito à Lei da Anistia é pressuposto de sua existência. Paulo Sérgio Pinheiro, o coordenador da comissão — e outros membros se manifestaram nesse sentido —, já evidenciou o seu inconformismo com esse limite. A questão não é só de gosto, mas também jurídica. A Lei da Anistia é parte do arcabouço legal que instituiu a Constituinte no país. Ademais, anistia — e já houve outas — quer dizer esquecimento (no quer tange às questões criminais e políticas), não absolvição.
Ora, então não se pode ser um crítico da Comissão da Verdade — ou mesmo se opor à sua existência na esfera da opinião (já que nada se pode fazer a respeito) — sem que isso transforme o indivíduo num agente da ditadura? Tenham paciência!
Terrorismo
Salles nega que tenha chamado a presidente Dilma de “terrorista”. Acredito nele. Também já me atribuíram tal coisa, e nunca ninguém encontrou o texto. O que escrevi, sim, e escrevo de novo agora, é que ela pertenceu a dois grupos terroristas. A presidente não é, obviamente, terrorista. A militante Dilma Rousseff foi. Não é matéria de gosto, mas de fato. Claro, claro, sempre se pode argumentar que o Colina e a VAR-Palmares, que lutavam por uma ditadura comunista e mataram inocentes em sua trajetória, só queriam democracia. Essa é certamente a conclusão a que a Comissão da Verdade já chegou — daí que não vá investigar os crimes de organizações do gênero. Mas essa é só uma das mentiras que vai contar essa comissão.
Qual é o problema do nosso jornalismo em encarar os fatos? Dilma tem orgulho de sua biografia. Já deixou isso claro mais de uma vez. É ilegítimo que pessoas possam ter uma abordagem crítica, negativa se for o caso, sobre o seu passado? Por quê? Porque Salles pensa o que pensa, isso faz dele um agente da ditadura, um homem conivente com a tortura, alguém impossibilidade de exercer a função que exerce?
Um jornalismo que se entrega a essas especulações há muito abandonou o sua missão. Está fazendo campanha eleitoral antecipada.
Golpe ou revolução?
Nesta quinta, foi a vez de o senador Aécio Neves (PSDB-MG) entrar na dança. Num evento do seu partido, num dado momento, referiu-se a 1964 como “revolução”. A patrulha imediatamente apareceu: “Ah, ele chamou golpe de revolução”; “revolução é como os militares chamaram o seu golpe”. Ora, até outro dia, os mesmos jornais que davam curso a essa questão ridícula referiam-se, em editoriais, àquele período como “Regime Militar”, e ao golpe como “Movimento Militar de 64”. E não era por imposição da censura nenhuma!
Era evidente que o senador não estava fazendo uma escolha política. Referiu-se àquele tempo por uma das expressões pelas quais ficou conhecido. Nada além disso. A conversa mole que se seguiu é só mais uma manifestação desses tempos estúpidos, de embotamento da inteligência. Sem contar que foi Tancredo Neves um dos protagonistas do fim do regime militar.
E não que essas coisas não devessem ser debatidas. Desafio qualquer historiador a provar, com dados objetivos e exposição de critérios do que seja uma coisa e outra, que 1930 tenha sido uma “revolução” e 1964 “um golpe”. Aí o tontinho patrulheiro se assanha: “Lá vai o Reinaldo tentar provar que os militares fizeram revolução”. Não, Zé Mané! Eu afirmo que 1930 também foi GOLPE, escancarado sete anos depois. Não existe revolução sem povo! De resto, povo por povo, havia muito mais em 1964 do que em 1930. A República brasileira, como sabe qualquer estudioso, foi inaugurada com uma quartelada.
Então por que 1930 é “revolução”, o ditador Getúlio Vargas é um herói, e 1964 é “golpe”, e os militares passam por esse processo de banditização? Por ideologia rasteira. Os nossos historiadores se debruçaram sobre 1930 e enxergaram ali o confronto entre progressistas e reacionários, entre o Brasil arcaico e o Brasil moderno. Como se chegou à conclusão — e nem contesto o mérito — de que houve um avanço, então é “revolução”. Já 1964 foi apenas “golpe” porque se entendeu que a nova ordem veio obstar a ascensão das camadas populares revolucionárias… As camadas populares revolucionárias não passavam de meia-dúzia de radicais, que não resistiram ao primeiro tiro. Aliás, não se disparou em 1964 tiro nenhum. Também a ambicionada “revolução socialista” não tinha… povo!
Um amante da objetividade é obrigado a indagar se os pobres brasileiros melhoraram ou pioraram de vida com o “golpe”. A pergunta pode ser feita ao metalúrgico Lula, depois sindicalista, que viveu a era do milagre e tinha, como já confessou em entrevista, o seu “carrinho”. Ia namorar de táxi, ele contou — um luxo a que o trabalhador brasileiro não se entrega ainda hoje.
O mesmo critério que chamou de “revolução” a ditadura inaugurada em 1930 — “é o moderno vencendo o arcaico” — poderia transformar em “revolução” também o movimento de 1964. Também nesse caso o “moderno vencia o arcaico”. Ah, mas, no regime militar, houve tortura e morte. E durante o Estado Novo? Ora…
Caminhando para a conclusão
O Brasil precisa é de mais debate, não de menos; o Brasil precisa é de mais divergência, não de menos; o Brasil precisa é de mais dissenso, não de menos. E precisa de mais respeito às regras do estado democrático e de direito, não de menos.
E olhem que isso tudo pode ser feito com muito beijo na boca.
Que as bocas se beijem como expressão da tolerância, não para ofender aquele de quem se discorda. Beijo na boca que ofende, modificando um pouco o que disse o poeta, é só a outra forma do escarro.
Por Reinaldo Azevedo