Congresso
Atos contra Feliciano têm apoio de servidores da Câmara
VEJA
Assessores parlamentares
de PT, PV e PSOL participam regularmente de protestos que atormentam o
presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Marco Feliciano
(PSC-SP). E que agora terminam em violência
Gabriel Castro, de Brasília
Tiago Oliveira, assessor da liderança do PV e Rodrigo
Cademartori, assessor de Érica Kokay em protesto contra o deputado Marco
Feliciano
(Gabriel Castro)
Nas últimas quatro semanas, a presença do deputado Marco Feliciano, do
PSC, no comando da Comissão de Direitos Humanos da Câmara tem provocado
protestos de militantes do movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e
transexuais), insuflados por parlamentares do PSOL e do PT. Nesta
quarta-feira,
durante o tumulto
que terminou com uma pessoa detida pela Polícia Legislativa, um detalhe
chamou a atenção: os crachás de funcionários da Câmara – alguns à
mostra, outros escondidos – pendurados no pescoço dos manifestantes.
Misturados ao grupo que tem promovido os protestos, são funcionários de
gabinetes da Câmara, pagos com dinheiro público, em horário de
expediente de trabalho.
Algumas caras são recorrentes nesses atos. Uma delas é Rodrigo
Cademartori, conhecido como Rodrigo "Pilha", assessor da deputada Érica
Kokay (PT-DF). Ligado ao PT, ele saltou direto do movimento estudantil
para um confortável cargo de confiança - primeiramente na Câmara
Legislativa do Distrito Federal, depois na Câmara dos Deputados. Para
quebrar a monotonia do serviço público, ele costuma participar de
protestos no horário de expediente. O rapaz, velho conhecido da
segurança da Câmara, foi um dos baderneiros que tentaram calar a
blogueira Yoani Sánchez aos berros, quando a cubana visitou o Congresso
em fevereiro. Rodrigo "Pilha" recebe mensalmente cerca de 4 200 reais.
Tiago Oliveira, assessor do PV, também resolveu usar o tempo de
trabalho para protestar contra Feliciano. "Hoje não tenho nada na
agenda", disse ele, candidamente, ao site de VEJA nesta quarta-feira.
Sem esconder que usa o horário de trabalho para fazer militância, o
assessor até aceita posar para foto. Ironicamente, o patrão de Tiago, o
líder do PV, Sarney Filho (PV-MA), indicou um pastor evangélico para a
comissão: Henrique Afonso (PV-AC), que ajudou a eleger Feliciano.
Os comissionados do PSOL são mais discretos: dão suporte aos
manifestantes sem repetir as palavras de ordem gritadas pelos corredores
da Câmara. Um deles, identificado como Alexandre, é assessor da
liderança do partido na Câmara. Na última quarta, ele orientava os
manifestantes sobre o melhor roteiro a ser percorrido dentro do
Congresso. Indagado pelo site de VEJA, Alexandre disse apenas que estava
lá para impedir abusos.
Outra assessora, apontada pelo próprio Alexandre como funcionária do
deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), também auxilia os militantes - alguns
deles, filiados ao PSOL. Também havia representantes do PSTU no
movimento contrário a Feliciano. E nem sempre os representantes dos
partidos envolvidos nos protestos se entendem: na última manifestação,
quando uma manifestante ligada ao PSTU lançou críticas à presidente
Dilma Rousseff, Rodrigo Cademartori, ou "Pilha", reagiu e chamou a jovem
de "aparelhista" - seja lá o que isso significar.
O grupo de parlamentares de siglas de esquerda e militantes dos
movimentos LGBT acusam o pastor de ter dado declarações racistas e
homofóbicas. Desde então, Feliciano tem enfrentado transtornos nos
corredores do Congresso, anda escoltado por seguranças e tem sido
impedido de comandar as atividades da comissão. Ele também virou alvo de
ataques nas redes sociais.
Pastor da Igreja Assembleia de Deus e deputado federal de primeiro
mandato, Marco Feliciano enfrenta a resistência de partidos de esquerda
que tradicionalmente reivindicam o comando da comissão, mas abriram mão
do posto neste ano e agora não aceitam a indicação de um pastor
evangélico para a cadeira. No caso do PT, o partido não pleiteou a
presidência do colegiado para ter o direito de chefiar comissões
consideradas mais nobres, como a de Constituição e Justiça (CCJ), que
abriga os mensaleiros José Genoino (SP) e João Paulo Cunha (SP), ambos
condenados pela Justiça. Ou seja, pelo acordo fechado previamente entre
os partidos, a presidência da Comissão de Direitos Humanos é cota da
bancada do PSC e cabe ao partido escolher seu representante, o que torna
a indicação de Feliciano legítima.
Violência - Nesta
quarta-feira, depois que Feliciano mudou o local da reunião e manteve
os manifestantes do lado de fora, eles resolveram ir até o gabinete do
deputado. Impedidos por seguranças, que formavam uma barreira em um
corredor do anexo 4, os militantes tomaram a iniciativa; em vantagem
numérica, deram empurrões nos funcionários da Câmara e geraram um grande
tumulto. Um jovem foi detido: Allysson Prata, que é funcionário da
Administração Regional de Ceilândia, uma espécie de subprefeitura
mantida pelo governo do petista Agnelo Queiroz no Distrito Federal.
Prata é ligado à deputada distrital Luzia de Paula (PEN). Presença
constante nos protestos contra Feliciano, o jovem chegou a ser detido
pela Polícia Legislativa quando tentava invadir o gabinete de Marco
Feliciano nesta quarta-feira. Allysson usa sua página no Facebook para
convocar os militantes de esquerda para os protestos contra o presidente
da Comissão de Direitos Humanos. Não se sabe em que momento ele bate
ponto no trabalho.
Não só os funcionários do Legislativo fogem do trabalho para aderir à
militância: Jandiara Machado é funcionária do Tribunal de Justiça do
Distrito Federal, onde o expediente ocorre só durante a tarde. Mas, por
volta das 15h desta quarta, ela estava na Câmara dos Deputados para
protestar contra Feliciano. E se justificou: "Depois eu faço reposição
de horário". Até agora, os militantes profissionais não anunciaram
nenhum protesto contra funcionários públicos que se ausentam das funções
durante o horário de trabalho.