Ensino superior VEJA
Reuni: atraso em obras ameaça excelência da Unifesp
Número de vagas cresceu
520%, mas falta quase tudo nos campi: laboratório, refeitório e sala de
aula. Prédio previsto para 2011 só deve ficar de pé em 2015
Criada em 1994, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) se
originou da Escola Paulista de Medicina, fundada na década de 1930.
Sinônimo de excelência, foi responsável pela formação de alguns dos mais
renomados médicos do país. Em 2007, a instituição aderiu ao
Reuni,
programa do governo federal de expansão universitária, elevando deste
então a oferta de vagas em 520% (de 1.512 para 9.400). Aos já existentes
campi de São Paulo e da Baixada Santista, se juntaram os de Guarulhos,
Diadema e São José dos Campos, em 2007, e de Osasco, em 2011. A
universidade deixou de atuar exclusivamente na área da saúde e passou a
oferecer graduação em ciências humanas e exatas. Esperava-se que a
excelência conquistada pela antiga Escola Paulista, núcleo formador da
Unifesp, fosse levada a todas as unidades. Essa marca, contudo, está em
risco devido aos problemas de infraestrutura da instituição, que se
expandem na velocidade do Reuni.
Leia também:
CGU aponta ‘sistemática de atrasos’ em obras das federaisDiretores da Unifesp reconhecem problemas em campus
A unidade José de Alencar, do campus de Diadema, foi inaugurada há dois
meses sem biblioteca nem refeitório para estudantes. Os alunos não
podem ter aula à noite por falta de segurança. Outra unidade, chamada
Antonio Doll, em vez de espaço próprio, ocupa o segundo andar de um
edifício alugado, sem a estrutura necessária à atividade acadêmica: a
sala de informática, por exemplo, conta com apenas três computadores.
No campus de Guarulhos, a situação é pior. Ali, são oferecidos cinco
cursos a 2.808 estudantes. O prédio principal, que deveria ter sido
inaugurado no segundo semestre de 2010, ainda nem saiu do chão, pois sua
construção não foi licitada. Com 20.000 metros quadrados, ele abrigaria
44 salas de aula, 22 gabinetes de pesquisa, refeitório e biblioteca. O
reitor da Unifesp, Walter Albertoni, culpa a burocracia pelos atrasos – é
a mesma
alegação do Ministério da Educação, contestada por especialistas em construção e administração pública. "Um projeto demora a ser executado: são três, quatro anos. Há a burocracia de todos os órgãos de controle", diz Albertoni.
A história do prédio parece novela. Segundo a Unifesp, em abril de
2009, foi contratada a Progetto Arquitetura, Engenharia e Construções
Ltda, responsável pelo projeto. A empresa, contudo, não entregou o
trabalho no prazo estipulado: cinco meses. Multada em 36.350 reais, teve
o contrato rescindido. Dois anos depois, após realização de nova
licitação, a encarregada da tarefa foi a NBC Arquitetura e Construções
Ltda, que entregou os projetos preliminares. A construção, contudo,
emperrou de novo, porque os orçamentos oferecidos por construtoras
superavam o limite permitido pela instituição. Agora, aguarda-se a
realização de nova licitação. Se tudo ocorrer conforme a nova previsão,
alunos e professores podem utilizar o prédio principal no final de 2015,
cinco anos depois do esperado – e, segundo estimativa, 5,4 milhões de
reais mais caro. Segundo a universidade, o encarecimento da obra se deve
ao atraso: os valores são reajustados de acordo com o Sistema Nacional
de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil (Sinapi)
(confira no quadro abaixo).
Improviso – Sem o prédio principal, os alunos do
campus de Guarulhos têm à disposição apenas 24 salas de aula. Como elas
não são suficientes, ocupam 14 salas cedidas pela prefeitura da cidade
no Centro Educacional Unificado (CEU), localizado ao lado, unidade
dedicada ao ensino infantil. "É lamentável que uma universidade federal
tenha de dividir espaço com crianças. Enquanto temos aula, elas brincam e
gritam pelos corredores", diz Michael Melchiori, estudante do terceiro
ano de filosofia.
Fulvio Oriola

Burnett, professor da Unifesp: 'Campus foi inaugurado e abandonado, como se sua mera existência fosse suficiente'
A falta de salas não é o único problema. O refeitório do campus
funciona em um precário galpão: à época da visita da reportagem, há um
mês, acumulava buracos e mofo nas paredes. O diretor do campus, Marcos
Cezar de Freitas, admitiu que os "buracos na estrutura surgem
eventualmente, mas são imediatamente reparados". Na biblioteca, cerca de
30.000 livros doados por professores de outras instituições estão
encaixotados por falta de espaço.
"Eu estava muito animado para começar a estudar: afinal, a Unifesp é
uma universidade renomada. Caí no conto do vigário", diz o estudante de
ciências sociais Bruno Atanásio. A indignação não é exclusiva de alunos.
O professor de filosofia Henry Burnett é enfático ao descrever o que
define como "desprezo": "O campus foi inaugurado e abandonado, como se
sua mera existência fosse o suficiente", diz o professor. "É difícil
entender por que foram contratados duzentos ou mais docentes com
doutorado se ainda não existe um prédio adequado a abrigar suas
atividades básicas."
O reitor Albertoni afirma que os problemas de infraestrutura não são
decorrentes da falta de verbas. De fato. Até este ano, o Reuni aprovou o
repasse total de 130,3 milhões de reais à Unifesp, sendo 102 milhões só
para obras, compra de equipamentos e mobiliário. "O governo forneceu as
condições financeiras. Nos falta, contudo, velocidade na construção",
diz. Ouvido pela
reportagem de VEJA sobre o Reuni,
o especialista em contas públicas Raul Veloso foi além: "A morosidade
do sistema público não é novidade. A legislação é tão burocrática que só
uma gestão muito eficiente pode dar conta de cumprir prazos e
orçamentos. Infelizmente, não é o que vemos."
O reitor da Unifesp conta que chegou até a cogitar a suspensão
temporária do vestibular para a seleção de alunos em Guarulhos. Isso
limitaria o número de estudantes na instituição até que as obras fossem
concluídas. Não aconteceu, e novos vestibulares foram realizados. "Fui
vencido pelo conselho universitário. Agora, o pior já passou." Não é o
que mostra o campus universitário.