Cultura VEJA
Biblioteca com mais de 50 mil livros sobre o Brasil abre ao público
Prevista para ser inaugurada no sábado (23), a Biblioteca Brasiliana
abriga a fantástica coleção particular do empresário José Mindlin
14.mar.2013
por Carolina Giovanelli
Em seus últimos tempos de vida, o empresário paulistano José Mindlin,
falecido em 2010, aos 95 anos de idade, foi aos poucos perdendo a visão.
A enfermidade acabou por privá-lo de desfrutar seu maior prazer: ler
livros. Para quem devorava até 1.500 páginas por mês, frequentemente
sentado em sua poltrona marrom, com um pedaço de marzipã ou chocolate ao
lado, a situação parecia desesperadora. Ele deu um jeito, entretanto,
de contornar o problema. Chamou amigos e parentes para que lhe contassem
as histórias em voz alta. A paixão por livros, principalmente os raros,
veio da juventude: aos 13 anos, Mindlin adquiriu, por pura curiosidade,
seu primeiro exemplar antigo, Discurso sobre a História Universal, de
Jacob Benigno Bossuet, editado em 1740. Na jornada das letras que
iniciava ali e seria alimentada pelas oito décadas seguintes, o fã
ardoroso de Machado de Assis e Marcel Proust garimpou em sebos do mundo
inteiro, trombando pelo caminho com pérolas únicas, em línguas como
russo, latim e alemão, que ele, entre outras, dominava. Em sua tranquila
residência na Rua Princesa Isabel, no Brooklin, os volumes foram
tomando a sala e os quartos, até se estender para dois anexos próximos. O
empresário formou, assim, a mais importante biblioteca particular do
país. “Quem não lê não sabe o que está perdendo”, dizia.
Guita e Mindlin, numa foto de 1989: acervo formado na casa do Brooklin
(Foto: Bia Parreiras)
+ Conheça alguns volumes raros da coleção brasiliana
+ Bibliotecas estrangeiras: o exemplo que vem de fora
+ Confira algumas dedicatórias encontradas em livros de José Mindlin
Parte do tesouro, que era antes restrito à consulta de pesquisadores
que visitavam sua residência da Zona Sul, será agora disponibilizada ao
público. No sábado (23) acontecerá a festa de abertura da Biblioteca
Brasiliana Guita e José Mindlin, instalada na Cidade Universitária. O
espaço começa com suas atividades normais já no dia 25. “A inauguração é
de enorme importância para a cidade e torna mais direta a consulta
desse acervo tão bem selecionado”, diz Samuel Titan Jr., professor da
USP e coordenador executivo do Instituto Moreira Salles. O projeto
ganhou vida graças a um desejo antigo de Mindlin, que não viveu para ver
seu sonho realizado. Como grande incentivador da leitura, o filho de
judeus russos resolveu doar, em 1999, sua inestimável coleção
brasiliana, com livros, mapas e manuscritos ligados à cultura nacional.
Foi firme ao recusar propostas de renomadas instituições estrangeiras
que pretendiam adquiri-la, a exemplo das americanas Stanford e Ucla,
pois queria que o espólio permanecesse no país. Escolheu a Universidade
de São Paulo, onde, na Faculdade de Direito do
Largo São Francisco,
se formara na década de 30 e conhecera a então caloura Guita Kauffmann,
com quem foi casado por quase setenta anos e teve quatro filhos: a
antropóloga Betty, a artista gráfica Diana, o administrador de empresas
Sérgio e a cantora Sonia. Eles herdaram o restante dos volumes, que não
pertencem à coleção brasiliana. Trata-se de uma estimativa de pelo menos
20.000 exemplares — entre eles, a primeira edição de
Os Lusíadas, de 1572 —, que serão doados, vendidos ou divididos de acordo com o interesse dos familiares.
A curadora Cristina Antunes: anjo da guarda da coleção
(Foto: Lucas Lima)
Em um incomum gesto de generosidade, Mindlin criou uma biblioteca
pública de peso. Surpreendentemente, enfrentou, para isso, um processo
lento e burocrático. De início, pensou em criar uma fundação privada que
serviria como receptora dos livros. Descobriu, entretanto, que para
fazer a transação precisaria pagar um imposto altíssimo. A saída foi
criar na própria USP um órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão
Universitária, que receberia diretamente a benfeitoria e, em
contrapartida, deveria construir o prédio e gerir a biblioteca. Os
39.000 títulos e 55.000 volumes, avaliados por especialistas em cerca de
100 milhões de reais, ficarão em estantes num prédio de cinco
pavimentos e 6 500 metros quadrados. O edifício faz parte de um
portentoso complexo de 20.950 metros quadrados que deve receber no
segundo semestre o Instituto de Estudos Brasileiros (que conta com
580.000 itens, também da cultura nacional), o Sistema Integrado de
Bibliotecas e uma biblioteca central de obras raras e especiais, todos
ligados à universidade.
Pedro Puntoni, coordenador-geral da biblioteca: 4 000 títulos digitalizados
(Foto: Mario Rodrigues)
O projeto, que conta com café, livraria da Edusp, laboratório de
restauração, auditório para 300 pessoas e salas de exposições, possui um
dispositivo contra cupins, instalação de iluminação regulável e
controle de temperatura. Tudo para a preservação adequada do papel. “A
questão mais séria para o doutor José era a acomodação das obras, pois
ele queria que isso fosse feito com o mesmo cuidado que ele tinha”,
conta a curadora Cristina Antunes, há mais de trinta anos uma espécie de
anjo da guarda do tesouro literário, cujas páginas conhece como a palma
de sua mão.
É ela quem coordenará a consulta das cópias mais frágeis e raras.
Nesses casos, haverá uma triagem, com a análise da razão pela qual o
interessado precisa dessa obra especificamente para seu estudo. Após
receber sinal verde, o pesquisador poderá apreciar o livro desejado na
presença de uma bibliotecária em uma sala especial, onde há câmeras em
cima de cada uma das mesas. Para folheá-lo, não se pode ter nenhuma
bebida, comida, caneta ou mochila por perto. No que se refere a outros
tomos, será possível acessá-los a partir de iPads que chegarão no
segundo semestre. Já foram digitalizados 4.000 títulos. O objetivo é que
todos estejam em breve disponíveis no tablet. “Queremos que esse espaço
seja um centro de estudos, e não apenas um museu, um depósito para a
conservação da coleção”, afirma Pedro Puntoni, coordenador-geral da
biblioteca. “Mindlin sempre almejou a democratização do acesso. Se as
pessoas não estiverem lendo, nada disso fará sentido.”
O conhecimento do empresário levou-o a ser secretário estadual de
Cultura, nos anos 70, e membro da Academia Brasileira de Letras. Além do
olhar atento do bibliófilo e de seu carinho pelas páginas, outro fator
importante na conservação dos livros, alguns da época do Descobrimento,
foi o trabalho de Guita, falecida em 2006. Também leitora voraz, ela se
transformou em uma referência em restauro de papel, inspirada pela
paixão do marido, e fundou a Associação Brasileira de Encadernação e
Restauro.
Os netos Rodrigo e Lucia com Eduardo
de Almeida: eles foram os arquitetos responsáveis pelo projeto e ela
lançará um livro com dedicatórias das obras do avô
(Foto: Mário Rodrigues)
Ao formar coleção tão única, Mindlin protagonizou histórias curiosas em
suas buscas incansáveis. E eram tantas que renderam até duas obras
próprias, Uma Vida entre Livros, lançada em 1997, e Memórias Esparsas de
uma Biblioteca, de 2004. “Ele era bastante persistente na procura”,
conta a curadora Cristina. “Tinha uma vida muito intensa, mas vivia
alegre. Em décadas de trabalho, eu o vi de mau humor apenas duas vezes.”
Dono da Metal Leve, empresa de autopeças que fundou em 1950,
aproveitava as viagens de negócios para visitar sebos. Antes de
desembarcar no destino, checava o endereço de livreiros de exemplares
raros na lista telefônica. Entre suas estratégias para barganha,
colocava o livro que realmente lhe interessava no meio de outros
escolhidos aleatoriamente, entregava-o ao vendedor, que nem sempre sabia
da importância da obra, e o somava aos demais. Poucas vezes deixava
passar a oportunidade de uma boa compra. Em uma ocasião, preferiu abrir
mão de um exemplar de Jean Christophe, de Romain Rolland. Arrependido,
voltou à loja dias depois, mas o volume já havia sido vendido. Para sua
sorte, veio a descobrir pouco tempo depois que a própria Guita, a quem
mencionara a tentação, tinha adquirido a preciosidade para dar de
presente em seu aniversário.
Nos anos 40, Mindlin fundou uma livraria de publicações raras no centro
de São Paulo, batizada de Parthenon. Visitou a Europa por três meses e
trouxe de navio 3 000 exemplares. Toda vez que negociava algum deles, no
entanto, dizia o seguinte ao comprador: “Se pensar em revender este
livro, não deixe de falar comigo”. Depois de cinco anos, quando saiu da
sociedade da loja, conseguiu recuperar quase tudo. Muitos amigos,
escritores e intelectuais, recheavam sua coleção com presentes. Entre
eles estavam Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e Rubens Borba
de Moraes, que lhe deixou em testamento toda a sua biblioteca brasiliana
particular, muito rica, cuja disposição espacial foi reproduzida
fielmente na casa da família no Brooklin — e também na USP. A paixão
pelos livros era tanta que Mindlin chegou a comemorar um aniversário de
Trionfi, Sonetti e Canzoni, publicação de 1488 de Francesco Petrarca, um dos mais antigos do acervo. Houve bolo e parabéns.
Seu legado, construído durante a vida, ganha assim, finalmente, uma
nova casa, à altura da importância da coleção e de seu formador. A neta
Lucia Loeb mantém a memória do avô viva com o lançamento, previsto para o
fim do mês, de um livro, batizado de Para a Tão Falada Biblioteca José e
Guita Mindlin, recheado de 125 dedicatórias encontradas nas páginas do
acervo. “Quis homenageá-lo”, diz. Seu irmão, Rodrigo, cuidou do projeto
arquitetônico do edifício junto de Eduardo de Almeida, arquiteto e amigo
de longa data do avô. Ambos aceitaram a tarefa a pedido do próprio
Mindlin. O bibliófilo não pôde, contudo, apreciar o resultado de seus
esforços. Segundo Rodrigo, talvez tenha sido melhor assim. “Acho que ele
já sabia que não iria ver o local pronto”, acredita. “Nunca conseguiria
ficar com a casa vazia, longe dos livros que tanto amava.”
A nova atração do câmpus
Alguns dos números e características do projeto
■ A estrutura de 20 950 metrosquadrados contará com a Biblioteca Guita e
José Mindlin, o Instituto de Estudos Brasileiros, o Sistema Integrado
de Bibliotecas da USP e uma biblioteca central de obras raras e
especiais da universidade
■ Sua construção levou seis anose custou 127 milhões de reais, captados
via Lei Rouanet, por meio de doações e por investimento da reitoria
■ Em cinco pavimentos, a Biblioteca Mindlin, de 6 500 metros quadrados, abrigará 39 000 títulos e 55 000 volumes
■ A coleção é avaliada em100 milhões de reais
■ Conta com dispositivo de acesso por biometria e sistema de câmeras e
sensores. Dispõe ainda de controle de temperatura e iluminação pensados
para preservar os livros, além de base contra cupins