segunda-feira, 25 de março de 2013

Coreia do Sul agora liga EUA e Europa a ciberataques

Ásia          VEJA

Coreia do Sul agora liga EUA e Europa a ciberataques

Seul afirma ter encontrado endereços de internet americanos e de três países europeus durante sua investigação; origem apontada antes era a China

Funcionários da Agência de Segurança da Internet da Coreia do Sul trabalham para identificar hackers
Funcionários da Agência de Segurança da Internet da Coreia do Sul trabalham para identificar hackers (Jung Yeon-je/AFP)
A polícia da Coreia do Sul divulgou nesta segunda-feira que encontrou endereços de internet (IPs) dos Estados Unidos e de três países europeus durante a investigação para encontrar os responsáveis pelos ataques cibernéticos sofridos por bancos e emissoras de TV do país na semana passada. O governo sul-coreano inicialmente apontou que o ciberataque havia partido de um endereço na China, embora não descartasse que a vizinha e rival Coreia do Norte fosse a responsável, mas admitiu na sexta-feira ter confundido o número de IP.
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Desta vez, as autoridades policiais sul-coreanas se limitaram a dizer que os endereços de protocolos da internet dos EUA e de três países da Europa geraram códigos maliciosos que levaram ao blecaute generalizado dos computadores dos bancos Nonghyup, Shinhan e Jeju e das emissoras de televisão KBS, YTN e MBC. A polícia solicitou que os governos dos quatro países – os três europeus que não foram identificados – cooperem com a investigação, informou a agência sul-coreana Yonhap.
Erro – Após o incidente da quarta-feira passada, o organismo de controle de comunicações de Seul atribuiu inicialmente o ataque a um endereço de IP chinês, o que alimentou especulações sobre o envolvimento da Coreia do Norte, de quem a Coreia do Sul vem recebendo diversas ameaças retóricas e provocações nas últimas semanas. No entanto, na sexta-feira a Comissão de Comunicações sul-coreana reconheceu que cometeu um erro ao confundir o suposto IP chinês com um endereço local utilizado pelo banco Nonghyup.
Após cinco dias do ataque cibernético, ainda havia seqüelas na instituição financeira, que se encontra em processo de normalização de seu sistema. O Shinhan e o Jeju já recuperaram completamente suas redes. As três emissoras de televisão afetadas conseguiram avanços significativos nos trabalhos de restabelecimento e acham que ao longo do dia de hoje poderão concluir a reparação dos sistemas.
Em ocasiões anteriores a Coreia do Sul acusou a Coreia do Norte de realizar diversos ciberataques contra vários organismos públicos e privados, por isso que desde o princípio o país vizinho era considerado o principal suspeito.
(Com agência EFE)

'NYT' afirma que CIA ajuda rebeldes sírios a adquirir armas

Guerra na Síria       VEJA

'NYT' afirma que CIA ajuda rebeldes sírios a adquirir armas

Jornal cita dados de tráfego aéreo, além de entrevistas com oficiais e rebeldes

Rebeldes enfrentam forças do regime, na cidade síria de Alepo
Rebeldes enfrentam forças do regime, na cidade síria de Alepo (AFP)
Alguns países árabes e a Turquia, apoiados pela CIA (inteligência americana), aumentaram de forma considerável a ajuda militar aos rebeldes sírios nos últimos meses, afirmou o jornal The New York Times nesta segunda-feira, citando dados de tráfego aéreo, além de entrevistas com funcionários anônimos e comandantes rebeldes.
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Segundo o NYT, a ponte aérea entre os países aumentou, e inclui mais de 160 voos de carga com aeronaves de tipo militar da Jordânia, Arábia Saudita e Catar, que pousam no aeroporto de Esenboga, perto de Ancara, e em outros terminais aéreos turcos e jordanianos. Agentes da CIA ajudariam os governos árabes a adquirir as armas, incluindo uma grande compra na Croácia, além de investigar comandantes e grupos rebeldes para determinar quem deve receber os armamentos.
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A Turquia também supervisiona boa parte do programa, monitorando os caminhões que transportam a carga por seu território. "Uma estimativa conservadora da carga destes aviões seria de 3.500 toneladas de equipamento militar", declarou ao NYT Hugh Griffiths, do Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (Sipri). "A intensidade e a frequência destes voos sugerem uma operação logística militar clandestina bem planejada e coordenada", completou.
(Com agência France-Presse)

Otan transfere controle total de prisão para governo afegão

Diplomacia       VEJA

Otan transfere controle total de prisão para governo afegão

Esta é parte importante do processo de transição da segurança às forças locais

Trinta e quatro mil soldados americanos deixarão o Afeganistão este ano
Trinta e quatro mil soldados americanos deixarão o Afeganistão este ano (Romeo Gacad / AFP)
A missão da Otan no Afeganistão (Isaf) entregou nesta segunda-feira às autoridades afegãs, após vários atrasos, o controle total da prisão de Bagram, que fica próxima a uma base militar dos Estados Unidos localizada em Cabul. "A transferência do centro de detenção é parte importante do processo de transição da segurança às forças afegãs", afirmou o principal responsável da missão da Otan e das tropas americanas no Afeganistão, o general Joseph Dunford.
A entrega foi feita em uma cerimônia simbólica na qual o ministro afegão de Defesa, Bismila Mohamadi, e Dunford assinaram um memorando de entendimento pelo qual se garante "o tratamento justo e humano dos detidos". Situada a cerca de 60 quilômetros ao norte de Cabul, na província de Parwan, a casa de detenção abriga muitos líderes da insurgência talibã e foi utilizado como a maior e mais importante prisão dos EUA no Afeganistão.
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Em setembro de 2012, a Isaf entregou parte do controle de Bagram, incluídos 3.000 reclusos, às autoridades afegãs, embora 600 prisioneiros, os mais perigosos, continuaram sob tutela de militares americanos, segundo a imprensa local. A cerimônia de hoje deveria ter sido realizada no início do mês, durante a visita ao Afeganistão do recém-nomeado secretário de Defesa de EUA, Chuck Hagel, mas por motivos não revelados a transferência foi adiada.
Mal-estar - A imprensa local divulgou, nesta segunda, que o recente anúncio do presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, de que libertaria os presos "inocentes" de Bagram, causou mal-estar em Washington e pode ter sido um dos motivos do adiamento. A prisão de Bagram foi objeto de várias controvérsias desde a invasão do Afeganistão, em 2001, em uma missão liderada pelas forças americanas.
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Organizações defensoras dos direitos humanos, como a Anistia Internacional (AI), denunciaram com frequência que os Estados Unidos prenderam no local centenas de pessoas, entre elas menores de idade, sem acesso a advogados nem a um julgamento. O presidente Karzai criticou em várias ocasiões a existência da prisão como uma violação da soberania do Afeganistão.
Nesta segunda, o secretário de Estado americano, John Kerry, fez uma visita surpresa ao Afeganistão para conversar com Karzai. Eles devem discutir uma série de questões, incluindo a reconciliação afegã, a transferência da responsabilidade da segurança para as forças afegãs com a retirada da maioria das tropas estrangeiras do país, e as eleições no Afeganistão, segundo uma autoridade americana não identificada.
(Com agências EFE e Reuters)

Ensino de música eleva desempenho escolar, diz estudo

Ensino de música eleva desempenho escolar, diz estudo 

VEJA

Pesquisa pioneira conduzida pela Unifesp analisa comportamento de estudantes com idades entre 8 e 10 anos

Nathalia Goulart
Aulas de música podem melhorar rendimento em matemática, português e leitura
Aulas de música podem melhorar rendimento em matemática, português e leitura (Thinkstock)
Um estudo recente conduzido pelo departamento de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com o Instituto ABCD, que ajuda na identificação e tratamento de distúrbios de aprendizagem, encontrou evidências de que o ensino de música tem efeito positivo no desempenho acadêmico de crianças e adolescentes, além de melhorar suas habilidades de leitura. A pesquisa é a primeira no mundo a mensurar esse impacto. Os resultados serão publicados neste mês no periódico científico PLoS One.
De acordo com o pesquisador Hugo Cogo Moreira, pós-doutorando da Unifesp e autor da pesquisa, as investigações sobre o tema realizadas até hoje se restringem a teorias que explicam por que a música afeta o desenvolvimento intelectual de crianças em idade escolar. "Nunca, porém, essas teorias foram testadas dentro da sala de aula. Por isso, tudo o que tínhamos até agora era puramente teórico. Essa falta de evidências me levou a encabeçar o primeiro estudo clínico sobre o assunto."
Para a pesquisa, Moreira selecionou dez escolas da rede pública de São Paulo. Em cada uma delas, participaram do experimento 27 estudantes com idades entre 8 e 10 anos que comprovadamente apresentavam dificuldades de leitura. As instituições foram então separadas em dois grupos: o primeiro, chamado intervenção, recebeu aulas de música três vezes por semana durante cinco meses; o segundo, chamado controle, não recebeu nenhum tipo de atenção especial. A função do segundo grupo é servir de base para comparação.
Nas escolas do primeiro grupo, as aulas foram ministradas por dois professores. A preocupação era garantir que as lições não seriam interrompidas – quando um professor faltava, havia outro profissional de plantão. Os docentes também foram avaliados a cada 15 dias pela equipe da Unifesp para garantir que as aulas seguiam os mesmos padrões em todas as escolas, evitando assim que um determinado grupo de alunos fosse privilegiado ou prejudicado involuntariamente. Em sala, as crianças foram estimuladas a compor, cantar, improvisar e fazer exercícios rítmicos utilizando uma flauta doce barroca, principal instrumento usado na pesquisa.
Ao fim da investigação, foram feitas duas análises dos dados. Na primeira, as crianças que tiveram aulas de música foram comparadas àquelas que estavam nas escolas-intervenção mas que não compareceram a nenhuma aula. Os alunos que assistiram a todas as aulas foram capazes de ler corretamente, em média, 14 palavras a mais por minuto, demostrando maior fluência. Além disso, foi constatado que, a cada bimestre, a nota final na disciplina de português dessas mesmas crianças aumentou em média 0,77 ponto, o que significa mais de 3 pontos ao fim de um ano letivo. Em matemática, o crescimento registrado foi um pouco inferior, mas igualmente significativo: 0,49 ponto a cada bimestre, ou 1,9 ponto ao fim do ano.
Na segunda análise conduzida por Moreira, o estudo comparou as crianças das escolas-intervenção com as das unidades-controle. Os resultados foram menos expressivos do que os da primeira análise, mas apontaram igualmente para uma melhora no desempenho acadêmico. As notas de matemática e de português subiram, respectivamente, 0,25 e 0,21 ponto por bimestre, ou 1 e 0,8 ponto até o fim do ano letivo. Houve melhora também no tocante à leitura: as crianças do primeiro grupo leram corretamente 2,5 palavras a mais por minuto. "Por se tratar de um estudo pioneiro, ele não é conclusivo em relação ao impacto real das aulas de música, mas certamente oferece indícios fortes o suficiente para que novas pesquisas investiguem a fundo o tema", diz o pesquisador.
De acordo com a lei nº 11.769, todas as escolas públicas e privadas do Brasil devem incluir o ensino de música em sua grade curricular. A lei não precisa, contudo, se as aulas devem ser dadas em todas as séries ou como devem ser incluídas na rotina escolar. Também não há informação sobre a carga horária mínima.
Apesar das evidências de que o conteúdo musical pode ter um impacto positivo no desempenho acadêmico dos alunos, os especialistas alertam: antes de inchar o currículo acadêmico com novas disciplinas, é preciso garantir que o aprendizado das disciplinas essenciais – o que ainda não acontece no Brasil.

Filme


Technos compra Dumont Saab por R$ 182 milhões

Negócios         VEJA

Technos compra Dumont Saab por R$ 182 milhões

Acordo, que ainda precisa passar pela aprovação dos acionistas da Technos, prevê a compra de 100% do capital votante e 95,84% do capital social da Dumont

Relógios Dumont
Technos anunciou compra por R$ 182,1 milhões do grupo Dumont Saab (foto) (Divulgação)
A Technos, uma das líderes do mercado brasileiro de relógios, anunciou nesta segunda-feira a compra, por 182,1 milhões de reais, do grupo Dumont Saab, que detém as marcas de relógios Armani, Diesel, DKNY, Michael Kors, Burberry, Marc Jacobs e Adidas no Brasil. A operação, que prevê a compra de 100% do capital votante e 95,84% do capital social da Dumont Saab, foi realizada por meio da Technos Amazônia Indústria e Comércio.

Sediada em Manaus (AM), a Dumont Saab foi fundada em 1970 e é uma das líderes do mercado relojoeiro no Brasil. A aquisição ainda será votada em Assembleia de Acionistas da Technos.
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O Grupo Technos detém as marcas Technos, Mariner, Touch, Euro e Allora e é representante exclusiva dos relógios da Mormaii, Seiko e Timex no Brasil. Segundo o fato relevante, por meio da aquisição da Dumont, a companhia aumenta seu portfólio para 19 marcas, sete próprias e 12 licenciadas. "Com isso, passa a ser líder em cada uma das categorias mais relevantes do setor no Brasil - Clássico, Esporte e Moda", afirma a Technos, no fato relevante.

De acordo com o comunicado, além da integração das marcas próprias Dumont e Condor, o Grupo Technos ganha uma representatividade maior no segmento moda por meio da parceria com o Grupo Fossil, mantida pela Dumont. "Com essa aliança estratégica, a Technos passa a distribuir no Brasil algumas das mais desejadas marcas internacionais de relógios, incluindo a Fossil, Michael Kors, Empório Armani, Armani Exchange, Diesel e Marc Jacobs", diz a companhia.
(com agência Reuters e Estadão Conteúdo)

Terremotos deram origem a mais de 80% dos depósitos de ouro do planeta

Geologia           VEJA

Terremotos deram origem a mais de 80% dos depósitos de ouro do planeta

Rápida despressurização em falhas geológicas provoca o acúmulo do metal

Ouro
Ouro: de acordo com pesquisadores, falhas geológicas ativas podem produzir 100 toneladas do metal em menos de 100.000 anos (Thinkstock)
Mais de 80% dos depósitos de ouro do mundo se formaram a partir de terremotos. Um estudo desenvolvido por pesquisadores australianos mostra que o precioso metal se forma em virtude da despressurização rápida de fluidos ricos em minerais presentes no interior da crosta terrestre, provocada pelos abalos sísmicos. A pesquisa foi publicada neste domingo, na revista Nature Geoscience.

Conheça a pesquisa

TÍTULO ORIGINAL: Flash vaporization during earthquakes evidenced by gold deposits
ONDE FOI DIVULGADA: revista Nature Geoscience
QUEM FEZ: Dion K. Weatherley e Richard W. Henley
INSTITUIÇÃO: Universidade de Queensland, Austrália
RESULTADO: A ampla despressurização causada por terremotos faz com que fluidos ricos em minerais 'presos' nas cavidades de falhas geológicas, no interior da crosta terrestre, vaporizem-se instantaneamente, formando um vapor de baixa densidade. Dessa forma, eles deixam as partículas minerais para trás, que se acumulam ao longo dos anos e dos diversos abalos sísmicos.
Em profundidades que variam de 5 a 30 quilômetros, fluidos com diversas substâncias dissolvidas, como ouro e minerais, presentes nas cavidades de falhas geológicas da crosta terrestre são submetidos a temperatura e pressão elevadas. Terremotos nessas regiões podem causar uma queda de pressão tão grande que faz com que esses líquidos se vaporizem instantaneamente.
Queda de pressão – De acordo com os pesquisadores, a pressão pode cair de 3.000 vezes a pressão atmosférica para uma pressão quase idêntica à da superfície da Terra, o que faz com que o fluido passe por um processo de "vaporização instantânea”. A despressurização faz com que os fluidos sofram uma expansão de até 130.000 vezes seu tamanho, formando um vapor de baixa densidade.
Quando isso ocorre, os resíduos sólidos presentes no fluido, como o ouro, ficam para trás, acumulando-se ao longo do tempo. Mais tarde, a entrada de novos fluidos nas cavidades pode dissolver alguns dos minerais deixados para trás, mas aqueles menos solúveis, como o ouro, vão se acumulando cada vez mais à medida que novos terremotos ocorrem.
Os autores do estudo estimam que falhas geológicas ativas podem produzir 100 toneladas de ouro em menos de 100.000 anos.
A ideia com que depósitos de ouro se formam a partir de fluidos ricos em minerais em falhas nas rochas abaixo do solo já era conhecida dos geólogos, mas a maneira como o ouro se acumula não estava clara, pois não se supunha que as mudanças de pressão desencadeadas por terremotos fossem tão grandes quanto as estimadas no estudo.

Biblioteca com mais de 50 mil livros sobre o Brasil abre ao público

Cultura         VEJA

Biblioteca com mais de 50 mil livros sobre o Brasil abre ao público

Prevista para ser inaugurada no sábado (23), a Biblioteca Brasiliana abriga a fantástica coleção particular do empresário José Mindlin
14.mar.2013 por Carolina Giovanelli
Em seus últimos tempos de vida, o empresário paulistano José Mindlin, falecido em 2010, aos 95 anos de idade, foi aos poucos perdendo a visão. A enfermidade acabou por privá-lo de desfrutar seu maior prazer: ler livros. Para quem devorava até 1.500 páginas por mês, frequentemente sentado em sua poltrona marrom, com um pedaço de marzipã ou chocolate ao lado, a situação parecia desesperadora. Ele deu um jeito, entretanto, de contornar o problema. Chamou amigos e parentes para que lhe contassem as histórias em voz alta. A paixão por livros, principalmente os raros, veio da juventude: aos 13 anos, Mindlin adquiriu, por pura curiosidade, seu primeiro exemplar antigo, Discurso sobre a História Universal, de Jacob Benigno Bossuet, editado em 1740. Na jornada das letras que iniciava ali e seria alimentada pelas oito décadas seguintes, o fã ardoroso de Machado de Assis e Marcel Proust garimpou em sebos do mundo inteiro, trombando pelo caminho com pérolas únicas, em línguas como russo, latim e alemão, que ele, entre outras, dominava. Em sua tranquila residência na Rua Princesa Isabel, no Brooklin, os volumes foram tomando a sala e os quartos, até se estender para dois anexos próximos. O empresário formou, assim, a mais importante biblioteca particular do país. “Quem não lê não sabe o que está perdendo”, dizia.

Guita e Mindlin, numa foto de 1989: acervo formado na casa do Brooklin
Guita e Mindlin, numa foto de 1989: acervo formado na casa do Brooklin
(Foto: Bia Parreiras)
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Parte do tesouro, que era antes restrito à consulta de pesquisadores que visitavam sua residência da Zona Sul, será agora disponibilizada ao público. No sábado (23) acontecerá a festa de abertura da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, instalada na Cidade Universitária. O espaço começa com suas atividades normais já no dia 25. “A inauguração é de enorme importância para a cidade e torna mais direta a consulta desse acervo tão bem selecionado”, diz Samuel Titan Jr., professor da USP e coordenador executivo do Instituto Moreira Salles. O projeto ganhou vida graças a um desejo antigo de Mindlin, que não viveu para ver seu sonho realizado. Como grande incentivador da leitura, o filho de judeus russos resolveu doar, em 1999, sua inestimável coleção brasiliana, com livros, mapas e manuscritos ligados à cultura nacional. Foi firme ao recusar propostas de renomadas instituições estrangeiras que pretendiam adquiri-la, a exemplo das americanas Stanford e Ucla, pois queria que o espólio permanecesse no país. Escolheu a Universidade de São Paulo, onde, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, se formara na década de 30 e conhecera a então caloura Guita Kauffmann, com quem foi casado por quase setenta anos e teve quatro filhos: a antropóloga Betty, a artista gráfica Diana, o administrador de empresas Sérgio e a cantora Sonia. Eles herdaram o restante dos volumes, que não pertencem à coleção brasiliana. Trata-se de uma estimativa de pelo menos 20.000 exemplares — entre eles, a primeira edição de Os Lusíadas, de 1572 —, que serão doados, vendidos ou divididos de acordo com o interesse dos familiares.

A curadora Cristina Antunes: anjo da guarda da coleção
A curadora Cristina Antunes: anjo da guarda da coleção
(Foto: Lucas Lima)
Em um incomum gesto de generosidade, Mindlin criou uma biblioteca pública de peso. Surpreendentemente, enfrentou, para isso, um processo lento e burocrático. De início, pensou em criar uma fundação privada que serviria como receptora dos livros. Descobriu, entretanto, que para fazer a transação precisaria pagar um imposto altíssimo. A saída foi criar na própria USP um órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária, que receberia diretamente a benfeitoria e, em contrapartida, deveria construir o prédio e gerir a biblioteca. Os 39.000 títulos e 55.000 volumes, avaliados por especialistas em cerca de 100 milhões de reais, ficarão em estantes num prédio de cinco pavimentos e 6 500 metros quadrados. O edifício faz parte de um portentoso complexo de 20.950 metros quadrados que deve receber no segundo semestre o Instituto de Estudos Brasileiros (que conta com 580.000 itens, também da cultura nacional), o Sistema Integrado de Bibliotecas e uma biblioteca central de obras raras e especiais, todos ligados à universidade.

Pedro Puntoni, coordenador-geral da biblioteca: 4 000 títulos digitalizados
Pedro Puntoni, coordenador-geral da biblioteca: 4 000 títulos digitalizados
(Foto: Mario Rodrigues)
O projeto, que conta com café, livraria da Edusp, laboratório de restauração, auditório para 300 pessoas e salas de exposições, possui um dispositivo contra cupins, instalação de iluminação regulável e controle de temperatura. Tudo para a preservação adequada do papel. “A questão mais séria para o doutor José era a acomodação das obras, pois ele queria que isso fosse feito com o mesmo cuidado que ele tinha”, conta a curadora Cristina Antunes, há mais de trinta anos uma espécie de anjo da guarda do tesouro literário, cujas páginas conhece como a palma de sua mão.
É ela quem coordenará a consulta das cópias mais frágeis e raras. Nesses casos, haverá uma triagem, com a análise da razão pela qual o interessado precisa dessa obra especificamente para seu estudo. Após receber sinal verde, o pesquisador poderá apreciar o livro desejado na presença de uma bibliotecária em uma sala especial, onde há câmeras em cima de cada uma das mesas. Para folheá-lo, não se pode ter nenhuma bebida, comida, caneta ou mochila por perto. No que se refere a outros tomos, será possível acessá-los a partir de iPads que chegarão no segundo semestre. Já foram digitalizados 4.000 títulos. O objetivo é que todos estejam em breve disponíveis no tablet. “Queremos que esse espaço seja um centro de estudos, e não apenas um museu, um depósito para a conservação da coleção”, afirma Pedro Puntoni, coordenador-geral da biblioteca. “Mindlin sempre almejou a democratização do acesso. Se as pessoas não estiverem lendo, nada disso fará sentido.”
O conhecimento do empresário levou-o a ser secretário estadual de Cultura, nos anos 70, e membro da Academia Brasileira de Letras. Além do olhar atento do bibliófilo e de seu carinho pelas páginas, outro fator importante na conservação dos livros, alguns da época do Descobrimento, foi o trabalho de Guita, falecida em 2006. Também leitora voraz, ela se transformou em uma referência em restauro de papel, inspirada pela paixão do marido, e fundou a Associação Brasileira de Encadernação e Restauro.

Os netos Rodrigo e Lucia com Eduardo de Almeida: eles foram os arquitetos responsáveis pelo projeto e ela lançará um livro com dedicatórias das obras do avô
Os netos Rodrigo e Lucia com Eduardo de Almeida: eles foram os arquitetos responsáveis pelo projeto e ela lançará um livro com dedicatórias das obras do avô
(Foto: Mário Rodrigues)
Ao formar coleção tão única, Mindlin protagonizou histórias curiosas em suas buscas incansáveis. E eram tantas que renderam até duas obras próprias, Uma Vida entre Livros, lançada em 1997, e Memórias Esparsas de uma Biblioteca, de 2004. “Ele era bastante persistente na procura”, conta a curadora Cristina. “Tinha uma vida muito intensa, mas vivia alegre. Em décadas de trabalho, eu o vi de mau humor apenas duas vezes.” Dono da Metal Leve, empresa de autopeças que fundou em 1950, aproveitava as viagens de negócios para visitar sebos. Antes de desembarcar no destino, checava o endereço de livreiros de exemplares raros na lista telefônica. Entre suas estratégias para barganha, colocava o livro que realmente lhe interessava no meio de outros escolhidos aleatoriamente, entregava-o ao vendedor, que nem sempre sabia da importância da obra, e o somava aos demais. Poucas vezes deixava passar a oportunidade de uma boa compra. Em uma ocasião, preferiu abrir mão de um exemplar de Jean Christophe, de Romain Rolland. Arrependido, voltou à loja dias depois, mas o volume já havia sido vendido. Para sua sorte, veio a descobrir pouco tempo depois que a própria Guita, a quem mencionara a tentação, tinha adquirido a preciosidade para dar de presente em seu aniversário.
Nos anos 40, Mindlin fundou uma livraria de publicações raras no centro de São Paulo, batizada de Parthenon. Visitou a Europa por três meses e trouxe de navio 3 000 exemplares. Toda vez que negociava algum deles, no entanto, dizia o seguinte ao comprador: “Se pensar em revender este livro, não deixe de falar comigo”. Depois de cinco anos, quando saiu da sociedade da loja, conseguiu recuperar quase tudo. Muitos amigos, escritores e intelectuais, recheavam sua coleção com presentes. Entre eles estavam Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e Rubens Borba de Moraes, que lhe deixou em testamento toda a sua biblioteca brasiliana particular, muito rica, cuja disposição espacial foi reproduzida fielmente na casa da família no Brooklin — e também na USP. A paixão pelos livros era tanta que Mindlin chegou a comemorar um aniversário de Trionfi, Sonetti e Canzoni, publicação de 1488 de Francesco Petrarca, um dos mais antigos do acervo. Houve bolo e parabéns.
Seu legado, construído durante a vida, ganha assim, finalmente, uma nova casa, à altura da importância da coleção e de seu formador. A neta Lucia Loeb mantém a memória do avô viva com o lançamento, previsto para o fim do mês, de um livro, batizado de Para a Tão Falada Biblioteca José e Guita Mindlin, recheado de 125 dedicatórias encontradas nas páginas do acervo. “Quis homenageá-lo”, diz. Seu irmão, Rodrigo, cuidou do projeto arquitetônico do edifício junto de Eduardo de Almeida, arquiteto e amigo de longa data do avô. Ambos aceitaram a tarefa a pedido do próprio Mindlin. O bibliófilo não pôde, contudo, apreciar o resultado de seus esforços. Segundo Rodrigo, talvez tenha sido melhor assim. “Acho que ele já sabia que não iria ver o local pronto”, acredita. “Nunca conseguiria ficar com a casa vazia, longe dos livros que tanto amava.”
A nova atração do câmpus
Alguns dos números e características do projeto
■ A estrutura de 20 950 metrosquadrados contará com a Biblioteca Guita e José Mindlin, o Instituto de Estudos Brasileiros, o Sistema Integrado de Bibliotecas da USP e uma biblioteca central de obras raras e especiais da universidade
■ Sua construção levou seis anose custou 127 milhões de reais, captados via Lei Rouanet, por meio de doações e por investimento da reitoria
■ Em cinco pavimentos, a Biblioteca Mindlin, de 6 500 metros quadrados, abrigará 39 000 títulos e 55 000 volumes
■ A coleção é avaliada em100 milhões de reais
■ Conta com dispositivo de acesso por biometria e sistema de câmeras e sensores. Dispõe ainda de controle de temperatura e iluminação pensados para preservar os livros, além de base contra cupins

SP: assassinatos crescem 15% no primeiro bimestre

SP: assassinatos crescem 15% no primeiro bimestre

VEJA

Segundo estatísticas da Secretaria de Segurança Pública, foram registradas 787 mortes intencionais no estado, contra 684 do mesmo período de 2012

Revólver
A taxa de homicídio por 100.000 habitantes em 2012 ficou em 11,47 (Thinkstock)
O número de homicídios dolosos (com intenção) no estado de São Paulo aumentou 15,06% no primeiro bimestre de 2013, em comparação com o mesmo período do ano passado. Segundo as estatísticas da criminalidade divulgadas nesta segunda-feira pela Secretaria da Segurança Pública (SSP), foram registradas 787 mortes intencionais entre janeiro e fevereiro. Nesses mesmos meses de 2012, foram 684 ocorrências.
Do total registrado no bimestre, foram 416 homicídios dolosos em janeiro e 371 em fevereiro. Esses números eram, no ano passado, 356 e 328, respectivamente. A taxa de homicídio por 100.000 habitantes, calculada com base no último ano (março de 2012 a fevereiro de 2013), ficou em 11,47. Entre 2011 e 2012, o índice era de 10,02.
Apesar do crescimento bimestral, se comparado o número de homicídios dolosos de fevereiro deste ano com o mês anterior, houve queda de 64 casos. O número de homicídio doloso por acidente de trânsito também apresentou queda de cinco para três casos, enquanto as tentativas de homicídio reduziram de 539 para 496. As ocorrências de estupro caíram de 1.138 em janeiro para 1.057 em fevereiro deste ano.

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Os dados da secretaria também revelam queda em alguns crimes contra o patrimônio em São Paulo. Houve, por exemplo, redução de 11,43% em roubos a banco no bimestre. Enquanto foram contabilizados 35 boletins de ocorrências para o crime em janeiro e fevereiro de 2012, a SSP registrou 31 ocorrências no primeiro bimestre deste ano. Na análise dos últimos doze meses, a queda do número de roubos a banco foi de 11,38%.
No caso de roubo de veículos, houve aumento das ocorrências no bimestre. Foram 14.627 casos nos dois primeiros meses de 2013, contra 13.546 em igual período do ano passado – um acréscimo de 7,4% no bimestre. O aumento foi puxado por janeiro, uma vez que houve leve redução entre fevereiro de 2012 (7.177 casos) e o mesmo período de 2013 (6.994 casos).
Capital – Na cidade de São Paulo, os casos de vítimas de latrocínios (roubo seguido de morte) dobraram no primeiro bimestre de 2013. Foram registradas trinta vítimas de latrocínio em janeiro e fevereiro, sendo quinze em cada mês. O número é o dobro dos quinze mortos em latrocínios computados no primeiro bimestre do ano passado – sete em janeiro e oito em fevereiro.
As estatísticas de fevereiro mostram que as ocorrências de homicídios dolosos também aumentaram na capital: foram 187 no primeiro bimestre de 2013, contra 158 em igual período de 2012 – aumento de 15,5%. Também houve crescimento dos casos de estupro na cidade. Nos dois primeiros meses deste ano, foram 556 ocorrências, contra 431 contabilizadas no mesmo período do ano passado – aumento foi de 22,5%.
(Com Estadão Conteúdo)

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