Especial
VEJA, Agosto de 1948
Nos chamados 'Jogos da Austeridade', Londres supera os
fantasmas da guerra e sedia uma Olimpíada notável – na qual, mais do
que em qualquer outra, o importante foi mesmo participar
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| Tributo à esperança: apenas três anos depois da guerra, Londres recebe a celebração do esporte |
Em Londres, os sinais dos seis anos de guerra que esfacelaram a
Europa ainda podem ser vistos e sentidos por toda a parte. Enquanto os
prédios em ruínas e os escombros empilhados nas ruas escancaram as
cicatrizes que a blitz nazista deixou na capital do império britânico, o
racionamento de alimentos, de roupas, de materiais de construção e de
combustível trata de seguir atormentando a nação do rei George VI, às
voltas com uma dívida de quase três vezes seu produto interno bruto. Em
mais uma demonstração de força psicológica e espírito de luta, contudo,
os londrinos, que há menos de oito anos surpreenderam o planeta ao
sobrepujar a até então invencível força aérea germânica na Batalha da
Grã-Bretanha, lograram entregar ao mundo neste ano de 1948 uma
Olimpíada, diante das circunstâncias, absolutamente irretocável. No
papel, celebrou-se a 14ª edição dos Jogos Olímpicos da era moderna; na
prática, ergueu-se um monumento vivo e pulsante em homenagem à liberdade
e à esperança.
Entre 29 de julho e 14 de agosto, mais de 4.100 atletas de 59 países
reuniram-se na Grã-Bretanha para a disputa do maior evento esportivo
global desde Berlim-1936. E, mais do que pelo estabelecimento de
recordes ou pela superação de limites pessoais, esses homens e mulheres
transformaram-se em legítimos heróis olímpicos pelo simples fato de
comungarem, ao lado dos 8 milhões de londrinos, de um esforço sem
precedentes para vencer a herança maldita da guerra. Sem o capital para a
construção de novas instalações para as provas, tratou-se de reformar e
adaptar as existentes; diante do racionamento de comida, frutificou-se a
solidariedade das nações, que partilharam tantos suprimentos quanto
podiam; com a escassez de mão-de-obra, manifestou-se a dedicação dos
competidores, que tiveram de comprar ou costurar seus próprios uniformes
e levar suas próprias toalhas para os alojamentos improvisados. Nos
chamados "Jogos da Austeridade", todos saíram vitoriosos.
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| Acomodações espartanas: os preparativos para receber os atletas - sem conforto, mas com dignidade |
Ringue na piscina – Em 1946, quando o Comitê
Olímpico Internacional (COI) confirmou Londres como sede da Olimpíada de
1948 – as duas edições anteriores, em 1940 e 1944, haviam sido
canceladas por causa do conflito que redefiniu as fronteiras do planeta
–, sabia-se que apenas a realização do evento em si já seria uma tarefa
hercúlea. Com os cofres públicos zerados, era claro que o Comitê
Olímpico Britânico não poderia contar com financiamentos estatais da
administração do primeiro-ministro Clement Attlee. Recorreria-se, sim, a
um esforço conjunto da organização, da população, dos esportistas e das
próprias autoridades, a fim de mostrar que, apesar das cicatrizes de
batalha – ou exatamente por causa delas –, Londres era o palco ideal
para uma celebração da paz naquela magnitude.
E assim, buscando-se economizar cada centavo, campos militares do
Exército e da Força Aérea Britânica, bem como enfermarias e faculdades,
foram usados como dormitórios para abrigar os atletas. Os competidores
anfitriões permaneceram em suas residências e utilizaram a malha de
transporte público local para se deslocar até as áreas de competição.
Nenhum estádio ou ginásio foi construído para o evento: aproveitou-se e
adaptou-se toda a estrutura existente em Londres e em seus arredores, o
que foi bastante para sediar com galhardia os 136 eventos de 23
modalidades esportivas. Claro que houve alguns sacrifícios: sede das
competições aquáticas, a Empire Pool precisou dividir suas instalações
com o pugilismo – um inesperado ringue surgia em um tablado instalado
sobre a piscina coberta. Já o estádio imperial, em Wembley, que abrigou
as provas de atletismo e as finais do futebol, precisou dar adeus à
tradicional pista de corrida de cachorros. Aproximadamente 800 toneladas
de cinzas foram despejadas para converter o espaço para uso dos
humanos.
Com o severo racionamento de alimentos em vigor na Grã-Bretanha – do
qual nem mesmo os atletas escaparam –, cada nação colaborou como
conseguiu. A Holanda enviou mais de cem toneladas de frutas e vegetais
para serem distribuídas entre as delegações; a Dinamarca, 160.000 ovos; a
Checoslováquia, 20.000 garrafas de água mineral. Na verdade, toda
ajuda, de qualquer natureza, foi extremamente bem-vinda – o Canadá, por
exemplo, cedeu duas pranchas de madeira de pinho, que viraram os
trampolins da Empire Pool.
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| A adaptação de Wembley: de pista de corrida de cachorros para palco da primeira Olimpíada do pós-guerra |
Ao manter o orçamento sob rédeas curtas, os responsáveis por
Londres-1948 ainda conseguiram outra vitória: transformaram os Jogos
Olimpícos em um produto superavitário. Com uma receita de 761.000 libras
(graças, principalmente, a 545.000 libras em ingressos vendidos) e uma
despesa de 732.000 libras, a Olimpíada produziu, portanto, um lucro de
cerca de 29.000 libras ao Comitê Organizador – sobre o qual recaiu um
imposto de 8.000 libras. Lorde Burghley, presidente do Comitê, fez
questão de dividir os louros com todos aqueles que se engajaram no
evento. "Se o sucesso dos Jogos pode ser atribuído a um fator mais do
que qualquer outro, é ao incrível modo com que o espírito olímpico
acendeu a todos aqueles que dele participaram", discursou. "Cada um
deles deve se orgulhar por ter contribuído com seu melhor para criar uma
grande e gloriosa façanha, não apenas na saga esportiva, mas também por
fazer a juventude superar a mesquinharia dos homens e fincar uma
bandeira de tolerância, compreensão e amizade na qual o mundo pode
verdadeiramente prosperar."
Mais que medalhas – "O importante nos Jogos
Olímpicos não é vencer, mas sim participar. O essencial na vida não é
conquistar, mas lutar com dignidade." Nunca antes na história da
Olimpíada o lema de Pierre de Coubertin, que emoldurou o placar de
Wembley na cerimônia de abertura do evento, foi tão adequado. Feitos
notáveis, como os quatro ouros da holandesa Fanny Blankers-Koen ou o
emocionante triunfo do atirador húngaro Karoly Takacs, é certo, já estão
gravados no almanaque de glórias dos Jogos Olímpicos. Da mesma forma,
ficará eternizada a estrondosa vitória dos Estados Unidos no quadro de
medalhas – evidentemente, a Alemanha, líder em Berlim-1936, não foi
convidada para os Jogos deste ano, assim como o Japão, cujos atos
bélicos ainda não foram totalmente digeridos pela comunidade
internacional. Porém, como confessou o fenomenal Emil Zatopek, campeão
dos 5.000 metros, Londres-1948 representou uma conquista muito maior do
que um recorde ou uma medalha.
“Depois de todos esses dias sombrios da guerra, dos bombardeios, da
matança, da fome, o retorno dos Jogos Olímpicos foi como se o sol
estivesse finalmente nascendo de novo. De repente, não havia mais
fronteiras, não havia mais barreiras, apenas as pessoas se
confraternizando. Foi algo maravilhosamente caloroso. Homens e mulheres
que haviam acabado de perder cinco anos de sua vida estavam de volta." A
vida estava de volta.